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Aguinaldo José de Oliveira

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Marília-SP

 

 

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TRABALHOS E PESQUISAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Novidades do salário mínimo no Brasil*

 

 

 

 

 

 

Marcio Pochmann[1]

 

 

 

 

Campinas - Fevereiro de 2.000.

 

 

Índice

 

1. Apresentação .......................................................................................................

03

2. Sessenta anos de política do mínimo no Brasil .................................................

04

2.1 A primeira fase, 1940/51 ..................................................................................

04

2.2 A segunda fase, 1952/64 ..................................................................................

05

2.3 A terceira fase, pós-1964 ..................................................................................

06

3. Ainda uma economia de baixos salários e péssima distribuição funcional da renda .......................................................................................................................

 

07

4. Elementos de comparação internacional do salário mínimo ...........................

10

5. O atual trabalhador de salário mínimo no Brasil .............................................

13

6. O salário mínimo nos anos 90 ............................................................................

15

7. Considerações finais ...........................................................................................

20

8. Referências bibliográficas ..................................................................................

21

 

 

 

1.      Apresentação

No ano em que a política do salário mínimo no Brasil completa 60 anos de existência, nada mais propício que o debate acerca do estabelecimento de seu novo valor seja realizado num contexto marcado por um amplo conjunto de informações, objetivando alcançar maior consistência nos argumentos tradicionalmente apresentados. Até agora, no entanto, parece prevalecer posições que, de um lado, colocam o salário mínimo como sendo quase desprezível ao conjunto dos trabalhadores, a partir do uso de dados que enganosamente parecem indicar parcela reduzida de pessoas na faixa do mínimo nacional. Por conta disso, tem sido recorrente, nas últimas seis décadas, as propostas de esvaziamento da política do salário mínimo, através do rebaixamento do seu valor real em geral e para determinados segmentos sociais (jovens, por exemplo), a regionalização de sua fixação, a separação entre o valor do mínimo nacional e o do piso da previdência social, a distinção do mínimo do setor privado e do setor público, entre outras[2].

De outro lado, soluções quase milagrosas também são continuamente apresentadas, propondo a superação simples e rápida do estágio atual de fome a que tem sido conduzida a política de salário mínimo no Brasil, assim como a indexação do seu valor ao curso de outras moedas que não sejam o real, a moeda nacional. Conforme autores que reconhecem o papel do salário mínimo com a função protetora do limite da pauperização dos trabalhadores é necessário a adoção de uma política pública que seja capaz de alterar as tendências inerentes do funcionamento do mercado de trabalho que instabilizam a vida dos empregados e os custos das empresas.[3]

Ao contrário do que se poderia imaginar, o contorno da recente polêmica do salário mínimo parece ocorrer sem muita referência e apoiado em estudos aprofundados sobre a atualidade do salário mínimo, suas repercussões e possibilidades de superação no médio e longo prazos. Por conta disso, pretende-se contribuir no debate sério e que se direcione ao efetivo enfrentamento de um problema crucial aos trabalhadores de salário de base, através da formulação da presente investigação sobre o salário mínimo no Brasil. Ele encontra-se dividido em cinco partes. Na primeira recupera-se, rapidamente, os traços principais da experiência de 60 anos da política do mínimo no país, bem como, na segunda parte, pretende-se analisar a permanência no Brasil do estágio de economia de baixos salários e de grave concentração funcional da renda nacional.

Na terceira parte, são apresentados alguns elementos de comparação internacional do salário mínimo, enquanto na quarta parte procura-se desvendar o brasileiro de salário de base. Na quinta parte, volta-se à análise da situação do salário mínimo na última década do século XX. O texto finaliza recuperando os argumentos que sintetizam o presente estudo sobre o salário mínimo no Brasil.

 

2.      Sessenta anos de política do mínimo no Brasil

A política do mínimo no Brasil está completando 60 anos de existência. Da introdução do valor do primeiro salário mínimo (1940) até os dias de hoje, a política do mínimo passou por profundas modificações, seja no que diz respeito ao seu objetivo, seja no que se refere ao seu resultado. Pode-se destacar, pelo menos, a existência de três fases distintas na condução da política de salário mínimo no país: 1940/51, 1952/64 e pós-64.

2.1  A primeira fase, 1940/51

Esta primeira fase correspondeu tanto ao momento de implementação e consolidação do valor do mínimo pelo governo de Getúlio Vargas (Estado Novo, de 1937 a 1945) quanto à reação a essa medida de intervenção no mercado de trabalho pelo governo liberal de Gaspar Dutra (1945-50). Decorrido um longo tempo de negociação política - iniciado em plena década de 1930 -, a fixação em 10 de maio de 1940 do primeiro valor do salário mínimo representou uma vitória das forças políticas comprometidas com o movimento de industrialização nacional, sustentado em torno da construção do mercado interno de consumo.

A ação do poder público direcionada para a institucionalização do valor do mínimo nacional, além de ter sido favorável ao movimento de industrialização (estruturação das remunerações), desempenhou um papel importante na regulamentação do mercado de trabalho, como mecanismo de proteção dos trabalhadores de salário de base. Segundo a interpretação de Oliveira Vianna (1951), um dos ideólogos da legislação trabalhista de Vargas, a criação do salário mínimo teve por objetivo a correção das injustiças promovidas pelo desenvolvimento industrial, incorporando ao mercado de consumo aqueles que se encontravam no limite da pauperização. Mas o salário mínimo era limitado para os empregados com carteira de trabalho nas cidades e diferenciava-se regionalmente. Nos centros industriais como São Paulo e Rio de Janeiro, que eram responsáveis por cerca de 50% do total dos empregos urbanos registrados, o valor do primeiro salário mínimo ficou abaixo da média dos menores salários, enquanto no restante das cidades, o mínimo legal foi superior à média das menores remunerações.

A fixação de um piso com valor elevado para o acesso ao mercado de trabalho organizado, durante os primeiros anos da década de 1940, atendia às necessidades essenciais do trabalhador, embora estimando-se que para as despesas familiares representasse apenas 40% do custo total. Na segunda metade dos anos quarenta, o poder de compra do mínimo caiu rapidamente[4].

Com o fim do autoritarismo representado pelo Estado Novo, a vitória da coalizão conservadora em 1946 concedeu maior peso às forças de mercado para a determinação dos salários. Para que isso fosse possível, o governo Dutra utilizou-se da intervenção nos principais sindicatos, da perseguição a líderes políticos e da cassação de partidos políticos (PCB). Embora houvesse a retomada do regime democrático e a definição constitucional (1946) do salário mínimo com dimensão familiar, na prática percebeu-se que o seu poder aquisitivo (1944/51) correspondeu a tão-somente dois terços das necessidades estimadas para um indivíduo e de 24% para uma família. Durante essa fase havia 17 níveis de salário mínimo no Brasil.

2.2  A segunda fase, 1952/64

Do início da década de 1950 até a primeira metade dos anos 60, o poder aquisitivo do salário mínimo recuperou as perdas anteriores e passou a incorporar parte dos ganhos de produtividade nacional. A existência de coalizões políticas que incluíam os interesses das classes subalternas permitiu que o salário mínimo chegasse a representar, na média do período 1952/64, 2,4 vezes a renda per capita, enquanto no período 1944/51 representou, em média, 1,3 vez o PIB per capita.

A forte atuação sindical durante os anos 50, apesar de sua ausência nas fábricas, permitiu o desenvolvimento de campanhas nacionais de defesa da elevação do salário mínimo, como forma de possibilitar o aumento do conjunto dos salários urbanos. A presença de interesses sociais organizados representados na agenda do Estado foi resultado do desenvolvimento do chamado "sindicalismo populista”. Para os empregos urbanos com carteira assinada houve a proteção dos trabalhadores de salário de base, enquanto os ocupados no meio rural permaneceram afastados dos efeitos diretos da elevação do valor do mínimo. Apesar disso, a segunda fase da política de salário mínimo (1952/64), esteve solidária com o padrão de desenvolvimento do setor de bens de consumo não-duráveis. Através da decisão política de elevação do valor do salário mínimo urbano foi possível a generalização de uma norma de consumo adequada à estrutura produtiva de bens e salários (Souza & Tavares, 1981).

Gráfico 01: Brasil - evolução do poder aquisitivo médio decenal, 1940/99


Fonte: FIBGE e DIEESE (SM real = 100,0 em 1940)

 


0 valor do mínimo registrou taxas de crescimento que permitiram atender às necessidades essenciais individuais de consumo, ainda que durante o movimento de forte industrialização e urbanização o custo de reprodução do trabalhador adulto houvesse tido que incorporar novas despesas, até então distantes do assalariado urbano (transporte, aluguel, remédios etc.). Comparando-se o período 1952/64 com os anos 1944/51, pode se observar que houve encarecimento, em média, de 12,2% no custo de reprodução do trabalhador assalariado, bem como a evolução positiva do salário mínimo nos anos 1952/64. Durante esse período, o salário mínimo registrou 29 níveis distintos no Brasil.

2.3  A terceira fase, pós-1964

A terceira fase de condução da política de salário mínimo teve início com a interrupção do regime democrático, em 1964, quando o valor do mínimo deixou de estar vinculado diretamente ao custo de reprodução da força de trabalho. Embora permanecesse o mecanismo de intervenção do poder público no mercado de trabalho, a política do mínimo, no que se refere à proteção dos trabalhadores de salário de base, esteve distante do atendimento dos objetivos estabelecidos pela legislação de 1940. Nos anos 1965/74, por exemplo, o valor do mínimo registrou uma queda no seu poder aquisitivo de 33,5%atendendo tanto à sustentação de uma base de apoio político do regime militar (pequenos negócios) quanto à composição das medidas ortodoxas de combate à inflação.

Em função disso, a incorporação gradual dos empregados rurais e dos autônomos nas legislações social e trabalhista ocorreu de forma incompleta e precária. Os trabalhadores rurais passaram a ter o direito à remuneração mínima e. parcialmente, aos demais direitos trabalhistas a partir da década de 1960, enquanto as empregadas domésticas somente foram incorporadas plenamente com a Constituição de 1988.

Os baixos valores para o salário mínimo foram acompanhados pelos benefícios previdenciários. Diante da política de arrocho do valor do mínimo e a flexibilização do regime de contratação e demissão da mão-de-obra (FGTS), as políticas de regulação do mercado de trabalho passaram a estar descomprometidas com a melhora das condições de vida das classes trabalhadoras. Observou-se, assim, o fortalecimento das forças de mercado. especialmente no que diz respeito ao movimento de generalização do mínimo para o campo e à unificação nacional do seu valor.

A política de salário mínimo, a partir da segunda metade dos anos 60, foi passiva frente ao processo de generalização das legislações trabalhista e social aos trabalhadores rurais. Noutras palavras, o salário-hora do homem do campo aproximou-se do valor do mínimo muito mais pela queda do poder aquisitivo do salário mínimo do que pela elevação acentuada de sua remuneração. Dessa forma, a maior abrangência de empregados de salário mínimo e no regime formal de trabalho deixou de provocar modificações profundas no nível de remuneração dos novos segmentos incorporados ao mercado de trabalho.

No mesmo sentido, não se verificou a elevação do custo do trabalho propalado pelos conservadores, apesar de a formalização das relações de trabalho implicar a introdução de adicionais sobre o salário de base (contribuições sociais e direitos trabalhistas). Em grande medida, porque o movimento de unificação nacional do salário mínimo ocorreu paralelamente à queda do poder aquisitivo do maior valor do mínimo, fazendo com que permanecesse inalterada a situação dos baixos salários. Enquanto em São Paulo o salário mínimo teve reduzido em 48% o seu poder de compra nos anos 1960-84, na Bahia, no mesmo período, houve aumento de 2,4%. Nos anos 60 havia 17 níveis distintos de salário mínimo, reduzindo para 5 nos anos 70 e 1 a partir de maio de 1984.

Com isso, o movimento de unificação nacional do salário mínimo praticamente não trouxe alteração no nível de diferenciação geográfica da remuneração dos trabalhadores de salário de base, uma vez que foi o maior valor do salário mínimo que adequou-se ao menor poder aquisitivo do mínimo praticado nas regiões tradicionalmente de baixos salários. Esse movimento favorável às regiões atrasadas e às empresas de baixa produtividade permitiu manter intacta parte da base de sustentação política do regime militar (pequenos negócios e oligarquias regionais). Com isso, pode-se dizer que o salário mínimo pouco contribuiu para a redução da heterogeneidade do mercado de trabalho.

Mesmo nos anos do "milagre econômico" (1968-73), quando o país registrou taxas significativas de expansão do emprego e do produto, o poder aquisitivo médio do mínimo nacional continuou apresentando queda. Isso, de certa forma, confirma a tese de que, a partir de 1964, não foi por razão econômica que o salário mínimo perdeu poder aquisitivo. Ainda hoje os argumentos de natureza econômica têm sido utilizados pelos conservadores para evitar qualquer elevação real do valor do mínimo.

Em relação ao período 1975/82, por exemplo, o salário mínimo apresentou, pela primeira vez em termos de média anual desde 1940, valores anuais inferiores à renda per capita. Desde 1975, o salário mínimo anual passou a ser inferior à renda nacional por habitante, enquanto nos anos anteriores o salário mínimo anual atingia valores nominais superiores a renda nacional dividida pelo número de habitantes.

No período subseqüente (1982/99), a tendência de queda do valor real do mínimo não foi alterada. Representando tão-somente, em média, cerca de 25% da renda per capita, 50% do custo das necessidades mínimas do trabalhador individual e 16% do custo familiar, o salário mínimo continuou afastando-se dos objetivos para o qual havia sido criado em 1940.

Nos anos 90, o esvaziamento adicional da política de salário mínimo se deu aliada ao fim da política salarial e à maior desregulamentação do mercado de trabalho, o que proporcionou o estabelecimento do menor patamar de poder aquisitivo do mínimo nacional nos último 60 anos. Apesar do descompromisso da atual política do salário mínimo com a reprodução adequada da força de trabalho, o seu valor ainda continua representando, de forma figurada, o centro de gravitação das remunerações dos empregados de salário de base. Por ser a remuneração de ingresso no mercado de trabalho organizado e a base da hierarquia de remunerações de grande parte das empresas, o valor do mínimo continua sendo uma referência de salário dos empregados secundários (não-chefes de família, mulheres e jovens), dos empregos com alguma qualificação no início da carreira e, sobretudo, de trabalhadores (chefes de família) sem qualificação.

3.      Ainda uma economia de baixos salários e péssima distribuição funcional da renda

Ao contrário do observado em outras economias que avançaram no seu processo de industrialização, o Brasil permaneceu sendo um país de baixos salários. Certamente, o fator econômico não pode ser responsabilizado pela sustentação de uma enorme quantidade de trabalhadores recebendo tão reduzidas remunerações, já que entre 1940 e 1999, a renda por brasileiro foi multiplicada por quase 5 vezes, enquanto o poder aquisitivo do salário mínimo vem perdendo, a partir dos anos 60, cada vez maior participação relativa na renda por habitante. Em 1957, por exemplo, o salário mínimo anual chegou a representar 2,7 vezes a renda per capita dos brasileiros, enquanto em 1999 significou apenas 28%, uma das menores indicações desde 1940.

O mesmo procedimento tendeu a ocorrer na comparação entre a evolução do salário médio na indústria de transformação e a do salário mínimo. Nos anos 50, o salário mínimo chegou a representar quase 90% do salário médio industrial, mas a partir da década de 1960, quando no período do chamado “milagre econômico” (1969/73) houve uma queda na participação relativa estimada de 55,8%.

Nas décadas de 1980 e 1990, o quadro de estagnação da renda per capita foi acompanhado de maior esvaziamento da participação do salário mínimo no salário médio na indústria de transformação, com diminuição estimada de 62,8%. Em 1999, o salário mínimo representou apenas16% do salário médio industrial, enquanto no final dos anos 70 esteve acima de 40%. 

Gráfico 02: Brasil -  evolução da relação do salário mínimo com o Produto Interno Bruto per capita e com o salário médio na indústria de transformação


Fonte: FIBGE e DIEESE

 


É importante também ressaltar a profunda mudança no padrão de política de salário mínimo ocorrido a partir da interrupção do Estado de direito, em 1964. A derrota imposta à política ativa de salário mínimo enquanto política de sustentação de renda dos trabalhadores de salário de base segue incólume desde então, apesar do retorno ao regime democrático desde 1985.

Nesses termos, o fator político é que ganha maior dimensão na discussão a respeito das razões explicativas do estágio de baixos salários e de péssima distribuição de renda no país. Isso tende a ficar mais claro ainda quando relaciona-se, ao longo do tempo, a quantidade de trabalhadores de baixa renda e com o valor do salário mínimo real.

No caso de o salário mínimo ter mantido o poder aquisitivo estabelecido em 1940 até o ano de 1998, a quantidade absoluta de trabalhadores de salário mínimo seria majoritária no total da população ocupada. Em 1940, por exemplo, eram 10,2 milhões de trabalhadores que recebiam um salário mínimo (ou 68,7% da população ocupada), passando para 12,1 milhões em 1960 (ou 52,7% do total dos ocupados), para 19,4 milhões em 1980 (ou 42,6% dos ocupados) e para 39,6 milhões em 1998 (ou 56,5% da população ocupada).

Gráfico 03: Brasil - evolução da quantidade de trabalhadores de salário mínimo real e nominal


Fonte: FIBGE e DIEESE (SM real = 100,0 em 1940)

 


Como o salário mínimo não manteve o poder aquisitivo estabelecido em 1940, apresentando uma trajetória de queda substancial desde a década de 1960, pode-se perceber que os salários em geral terminaram tendo uma performance menos regressiva que o valor real do piso nacional. Dessa forma, desde os anos 60 vem sendo possível, ainda que de maneira artificial, haver uma diminuição na quantidade de trabalhadores com salário mínimo no Brasil.

Em 1980, por exemplo, o número de brasileiros com rendimento até o valor nominal do salário mínimo (que era 38,2% inferior ao de 1940) foi de 13,6 milhões, enquanto em 1998 foram 14,9 milhões de trabalhadores com rendimento até o valor nominal do piso nacional (que era 73,4% inferior ao de 1940). Assim, a redução relativa dos trabalhadores de salário mínimo de 29,9% em 1980 para 21,3% em 1998 termina sendo ilusória, pois no mesmo período o mínimo perdeu 57,0% do seu valor real.

Por ser uma economia de baixos salários, não causa espanto a permanência de elevada desigualdade de renda e enorme abertura no leque de salários. Ao analisar-se a evolução da distribuição funcional da renda, isto é, a participação do rendimento do trabalho no total da renda nacional, pode-se perceber o movimento de concentração nas outras formas de renda que não do trabalho, sobretudo desde os anos 80. 

Entre as décadas de 1940 e 1950, quando prevaleceu a presença de uma política de manutenção - quando não de elevação - do valor real do salário mínimo, a participação do rendimento do trabalho na renda nacional manteve-se relativamente inalterada. Nos anos 60 e 70 ocorreu uma leve queda da participação relativa do rendimento do trabalho em paralelo com a diminuição do poder aquisitivo do salário mínimo.

 

Gráfico 04: Brasil - evolução da distribuição funcional da renda nacional e do poder aquisitivo do salário mínimo (100,0 = 1940)


Fonte: FIBGE e DIEESE

* estimativa

Durante as duas últimas décadas do século XX, quando a renda per capita nacional permaneceu estagnada, a queda na participação relativa do rendimento do trabalho na renda nacional foi brutal, assim como o verificado na redução do poder aquisitivo do salário mínimo Em 1998, a participação do rendimento do trabalho na renda nacional foi de 35,2% inferior a de 1949, enquanto a queda acumulada do poder aquisitivo do salário mínimo é 37,1% no mesmo período de tempo.

4.      Elementos de comparação internacional do salário mínimo

A experiência internacional do salário mínimo revela a permanência do seu papel destacado na regulação econômica e social. Além da garantia de um patamar mínimo para o estabelecimento da remuneração dos trabalhadores de salário de base, compreende também o instrumental fundamental na reparticipação da renda, na limitação da desigualdade de rendimento e na proteção dos trabalhadores insuficientemente cobertos pelas negociações coletivas de trabalho.

Após o vendaval das teses neoliberais nas economias desenvolvidas, passou a ressurgir com força o reconhecimento de que a defesa do salário mínimo tornou-se fundamental como medida justa de luta contra as desigualdades que se elevaram (OCDE, 1998). Dessa forma, volta-se ao consenso construído em 1929 entre os países membros da Organização Internacional do Trabalho, quando da promulgação de diversas convenções sobre o salário mínimo.[5]

Embora prevalecendo uma diversidade relativamente grande de práticas institucionais nos países de estabelecimento do salário mínimo, pode-se acompanhar a sua ação em termos da evolução mais recente de seu poder aquisitivo. No conjunto de apenas 6 países, percebe-se que desde 1975, o Brasil apresentou uma trajetória bem distinta no poder aquisitivo do salário mínimo.

Gráfico 05: Evolução do salário mínimo real em países selecionados, 1975/97


Fonte: OCDE, 1998

 


Diante do patamar de renda per capita muito diferenciado, pode-se constatar, por outro lado, que a participação do salário mínimo anual encontra-se submetida à existência de dois limites: o inferior e o superior. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos representam o exemplo de limite inferior do salário mínimo em relação à renda per capita, estimado em 39% em 1999, e a Dinamarca representa o exemplo do limite superior, estimado em 66% em 1999.

Tabela 01: Comparação do Produto Interno Bruto per capita e de sua com o salário mínimo em países selecionados, 1999

Países

Renda per capita em dólar

SM/PIB per capita em %

Dinamarca

33.014

66,2

Estados Unidos

32.856

38,7

Suécia

26.220

39,7

França

24.619

49,6

Inglaterra

23.784

50,7

Espanha

15.289

54,9

Argentina

7.921

42,9

Uruguai

6.032

47,5

México

4.364

41,4

Venezuela

4.173

51,3

Brasil

3.396

28,6

Peru

2.460

35,4

Egito

1.180

63,1

Bolívia

985

54,8

Fonte: FMI; OCDE; FIBGE

 

Para países não desenvolvidos, o limite superior do salário mínimo pode sewr encontrado em países como o Egito, com o salário mínimo em relação à renda per capita, estimado em 66%, enquanto o Brasil representa o exemplo do limite inferior, estimado em 28%, de acordo com o conjunto de países com informações disponíveis em 1999. Apesar de possuir renda per capita maior do que a de países como o Peru, Bolívia e Egito, o Brasil destaca-se por apresentar baixa participação do salário mínimo anual no PIB por habitante. Não deve causar espanto, portanto, o fato de o país ser conhecido internacionalmente pelas enormes diferenciações de rendimentos entre os ocupados.

Comparando-se o valor do mínimo com a hierarquia salarial dos trabalhadores ocupados no setor industrial, percebe-se que as diferenças são exorbitantes no Brasil. A diferença entre o salário médio do operário e o salário médio da administração na indústria de transformação brasileira é de 9,4 vezes, enquanto na Alemanha é de 1,6 vezes, de 2,8 vezes na França, de 2,1 vezes na Holanda, de 1,8 vezes na Dinamarca e de 1,7 vezes na Itália (Santos & Pochmann, 1996).


Gráfico 06: Brasil - distribuição dos pisos salariais em relação ao salário mínimo em categorias profissionais selecionadas em 1996

Fonte: DIEESE, 1996

 

De outro lado, a capacidade sindical de estabelecer o piso salarial da categoria profissional mostra ser fundamental no dimensionamento do intervalo entre o maior e o menor salário pago pelo empregador. O salário mínimo, obviamente, contribui com o sindicato na luta pela elevação do piso salarial, na medida em que estabelece o limite inferior de contratação do trabalhador por parte do empregador.

Conforme estudo do DIEESE, a capacidade sindical na definição do piso salarial das categorias não consegue ir muito além do salário mínimo oficial. Em 1996, por exemplo, 59,2% dos pisos salariais dos sindicatos selecionados tinham seus valores abaixo de 2,5 salário mínimos. Considerando o valor real do salário mínimo de 1940, que em 1996 eqüivalia em termos reais a 4,0 SM nominais do mesmo ano, somente 11% dos pisos salariais estariam acima do valor do mínimo nacional.

5.      O atual trabalhador de salário mínimo no Brasil

O segmento da População Economicamente Ativa que recebe o salário mínimo compreendeu, em 1998, 14,9 milhões de brasileiros. Do conjunto de trabalhadores com rendimentos (70 milhões), 21,3% tinham suas remunerações mensais equivalentes até o valor do salário mínimo.

Tabela 02: Brasil - trabalhador de salário mínimo, 1998

Posição ocupacional e % de trabalhadores

Em %

 

Total

Homem

Mulher

 

Total de ocupados com Rendimento

100,0

100,0

100,0

 

Até 1 Salário Mínimo

21,3

18,4

25,8

 

Empregados

100,0

100,0

100,0

 

Até 1 Salário Mínimo

19,3

19,5

19,1

 

Trabalhadores Domésticos

100,0

100,0

100,0

 

Até 1 Salário Mínimo

58,9

41,4

60,2

 

Conta Própria

100,0

100,0

100,0

 

Até 1 Salário Mínimo

31,9

26,3

46,2

 

Empregador

100,0

100,0

100,0

 

Até 1 Salário Mínimo

3,6

3,6

3,4

 

Fonte: IBGE - PNAD 1998.

 

O recebimento de remuneração equivalente ao salário mínimo não diz respeito a apenas trabalhador assalariado. Tem até empregador que recebe o valor do salário mínimo no Brasil. No ano de 1998, do total de 14,9 milhões de brasileiros com rendimentos que recebem o equivalente ao salário mínimo, 7,8 milhões eram homens (52,3%) e 7,1 milhões eram mulheres (47,7%). O setor urbano possuía 10,6 milhões de brasileiros de salário mínimo (71,1%), enquanto o setor rural era responsável pela existência de 4,3 milhões pessoas com rendimento equivalente ao piso nacional (28,9%).

Gráfico 07: Brasil - distribuição geográfica do trabalhador de salário mínimo, 1998


Fonte: FIBGE – PNAD

 


Ainda em relação ao universo de trabalhadores de salário mínimo, pode ser destacada a presença de 2,0 milhões de pessoas que pertenciam ao setor industrial (13,4%); 1,6 milhões ao comércio (10,6%); 6,6 milhões aos serviços privados (44,2%), 442 mil ao serviço público (2,9%) e 4,3 milhões ao setor agrícola (28,9%).

A região Nordeste concentra mais da metade dos trabalhadores de salário mínimo no Brasil. No ano de 1998, a segunda grande região geográfica em quantidade de trabalhadores de salário mínimo era a Sudeste com quase 25% do total, seguida da região Sul (11,3%).

Gráfico 03: Brasil – empregado assalariado de salário mínimo, 1998

Emprego assalariado

Em %

 

Total

Homem

Mulher

Total de empregados*

100,0

100,0

100,0

Até 1 Salário Mínimo

19,1

19,3

18,9

Com Carteira Assinada

100,0

100,0

100,0

Até 1 Salário Mínimo

7,6

6,7

9,3

Militares e Estatutários

100,0

100,0

100,0

Até 1 Salário Mínimo

8,2

5,9

10,0

Sem Carteira Assinada

100,0

100,0

100,0

Até 1 Salário Mínimo

41,9

40,9

44,8

Fonte: IBGE, PNAD 1998. * inclui recebimento de benefícios

 

Do conjunto de trabalhadores de salário mínimo, apenas 2,6 milhões contribuem para a Previdência Social (17,4%), sendo 1,9 milhões assalariados com registro formal (12,7%) e 0,7 milhão autônomo e empregador (4,7%). Dessa forma, 12,3 milhões de brasileiros de salário mínimo não contribuem para a Previdência Social (82,3%) e 12,3 milhões de brasileiros encontram-se fora do marco legal do mercado de trabalho (82,6%).

Para os trabalhadores assalariados, nota-se que o salário mínimo encontra-se mais concentrado para as mulheres sem carteira assinada, sobretudo no emprego doméstico que tem 76% dos 5 milhões de seus postos de trabalhos informais. No emprego público, também é a mulher que possui maior participação relativa nos postos de trabalho de salário mínimo.

Tabela 04: Brasil - trabalhador de salário mínimo segundo grau escolaridade, 1998

Faixas

Em %

 

 

Etárias

Total

Até 1 SM

 

Até 1 ano de instrução

13,3

25,1

 

De 1 a 3 anos

16,4

23,6

 

De 4 a 7 anos

31,0

33,6

 

De 8 a 10 anos

14,8

11,6

 

De 11 a 14 anos

17,6

5,7

 

De 15 anos ou mais

6,8

0,4

 

Total

100,0

100,0

Fonte: IBGE - PNAD 1997.(*) Inclui os sem rendimento ou sem declaração.

 

Entre os 14,9 milhões de brasileiros de salário mínimo, 7 milhões possuíam até 3 anos de escolaridade (47,0%), sendo 3,6 milhões com menos com menos de 1 anos de instrução (24,1%), enquanto 888 mil possuíam mais de 11 anos de escolaridade (6,0%).

Além disso, observa-se também a presença de extensas jornadas de trabalho como praticada intensivamente pelos trabalhadores de salário mínimo. A qualidade do postos de trabalho e a sua instabilidade, bem como o baixo rendimento tornam a jornada prolongada de trabalho uma forma de compensar a baixa produtividade pelo lado patronal quanto uma via de complementação da reduzida remuneração mensal pelo lado laboral. Em 1998, por exemplo, entre os 14,9 milhões de trabalhadores de salário mínimo, havia 5,5 milhões que trabalhavam mais de 44 horas semanais (36,9%).

Gráfico 08: Brasil - trabalhador de salário mínimo segundo a jornada semanal de trabalho, 1998


Fonte: IBGE – PNAD, 1998

 


6.      O salário mínimo nos anos 90

Durante os anos 90, a evolução do salário mínimo real foi negativa, acumulando queda no seu poder aquisitivo estimada em 36,2% na comparação entre os anos de 1989 e 1999[6]. Essa perda ocasionada no poder aquisitivo do salário mínimo anual, terminou por se refletir, invariavelmente e em maior ou menor o grau, sobre outras variáveis socieconômicas.

Em relação, por exemplo, ao comportamento da pobreza e da desigualdade de renda foi possível identificar uma associação direta e inversa à evolução do poder aquisitivo do salário mínimo. Por outro lado, quanto ao emprego, percebe-se uma relação direta e no mesmo sentido com a evolução do valor real do salário mínimo, conforme pode-se observar a seguir.

Em 1999, o salário mínimo anual eqüivaleu 28,6% da renda per capita nacional, enquanto em 1989 chegou a representar quase 44%. A diminuição na participação relativa do salário mínimo na renda por habitante ocorreu porque houve uma queda estimada em 9,4% no PIB por capita, entre 1990 e 1992, enquanto o salário mínimo real caiu 36,2%.

 

Gráfico 09: Brasil – evolução do salário mínimo real e a renda per capita, 1989/99


Fonte: IBGE, DIEESE e MTb

 


Na fase de recuperação do PIB per capita, estimada em 13,5% entre 1993 e 1997, o salário mínimo real acumulou uma leve diminuição de 3,0% no seu poder de compra. Nos anos de 1998 e 1999, diante da nova queda da renda per capita de 2,1%, o salário mínimo registrou uma elevação de 2,6% no seu poder aquisitivo.

A queda no emprego formal foi menos acentuada que a diminuição do salário mínimo real nos últimos 10 anos. Para uma diminuição de 18,1% no emprego formal, o salário mínimo registrou redução de 36,2%. Coincidência ou não, o equivalente ao dobro da diminuição do salário mínimo ocorrida entre 1989 e 1999.


Gráfico 10: Brasil – evolução do salário mínimo e do emprego formal e informal, 1989/99

Fonte: IBGE, DIEESE e MTb

 

Ao mesmo tempo em que foi registrada a redução do salário mínimo real ocorreu a expansão das ocupações consideradas informais (assalariamento sem registro formal e trabalho autônomo). Assim, os dados a respeito da evolução da ocupação apontam para uma situação inversa entre a evolução do poder aquisitivo salário mínimo e as ocupações informais e direta e no mesmo sentido entre o salário mínimo e o emprego formal.


Gráfico 11: Brasil – evolução do salário mínimo e desemprego, 1989/99

Fonte: IBGE, DIEESE e MTb

 

Também em relação ao comportamento do desemprego pode-se observar que a presença de evolução inversa à trajetória do poder aquisitivo do salário mínimo. Entre 1989 e 1999, o índice de desemprego nacional foi multiplicado por 3,5 vezes, enquanto o salário mínimo acumulou uma perda real de 36,2%.


Gráfico 12: Brasil - evolução do salário mínimo e pobreza*, 1989/99

Fonte: IBGE, DIEESE e MTb

* % de pessoas com rendimento abaixo do salário mínimo real de 1980

 

Nos anos 90, a evolução da pobreza comportou-se de maneira circular. Ou seja, houve aumentou relativo da quantidade de pobres entre 1990 e 1993 e entre 1996 e 1999, enquanto no período de 1994 e 1996 foi registrada uma queda. Na fase em que ocorreu a diminuição da desigualdade de renda, o poder aquisitivo do salário mínimo manteve-se quase inalterado, enquanto na fase de elevação da diferença dos rendimentos, o poder aquisitivo do mínimo caiu acentuadamente.

Gráfico 13: Brasil – evolução do salário mínimo e desigualdade social*, 1989/99


Fonte: IBGE, DIEESE  e MTb;

* = relação entre a renda média dos 10% mais ricos contra a renda média dos 50% mais pobres.

 

Em relação à desigualdade, nota-se que durante a recessão econômica, ocorrida entre 1990 e 1992, tanto a desigualdade de renda quanto o valor real do salário mínimo diminuíram. Entre 1994 e 1996, com a recuperação do nível de atividade e a estabilização monetária, a desigualdade de renda voltou a decrescer, enquanto o salário mínimo anual sofreu uma leve elevação (0,5%). Nos anos de 1998 e 1999, quando a desaceleração econômica tomou conta do país, a desigualdade voltou a crescer levemente, junto com a redução de 2,1% no poder aquisitivo do salário mínimo.

Interessante notar que durante os anos 90, a arrecadação líquida da previdência social foi positiva, sendo em 1999 55% superior a verificada em 1989. No mesmo período de tempo, o valor real do salário mínimo foi reduzido em 36,2%.

Durante a recessão econômica do governo Collor, a arrecadação líquida da previdência social no Brasil foi decrescente durante a recessão, porém com a recuperação econômica pós-1992 a arrecadação cresceu expressivamente em termos reais. Ainda que o comportamento do emprego formal não tenha sido positivo, a previdência social aumentou sua receita, tendo desde 1994 operado com déficit.

Do conjunto de aposentados e pensionistas da previdência social, estimada em 18,8 milhões de brasileiros em 1999, constata-se que 66,9% recebem até 1 salário mínimo. Percebe-se que mesmo diante do achatamento do salário mínimo praticado na última década do século XX e nem mesmo ao que parece a recente reforma previdenciária mostram-se suficientes para resolver seus problemas estruturais. Não seria, portanto, a permanência do achatamento do valor do salário mínimo que resolveria a crise estrutura da previdência social no Brasil. Somente a retomada do crescimento econômico sustentado, com a incorporação dos trabalhadores de fora do sistema previdenciário, que em 1998 significava 51 milhões de um total de 70 milhões de ocupados, poderá criar condições mais satisfatórias para a estabilização das despesas superiores às receitas.


Gráfico 14: Brasil – evolução do salário mínimo e previdência social, 1989/99

Fonte: MPAS/SPS, DIESE e MTb

 

Também em relação à evolução da carga tributária bruta, como relação ao comportamento do Produto Interno Bruto brasileiro, observa-se uma elevação expressiva, estimada em 32,5% entre 1989 e 1999. Mas o aumento da receita do poder publico não foi acompanhada lamentavelmente pela evolução do poder aquisitivo do salário mínimo.

 


Gráfico 15: Brasil – evolução do salário mínimo e o setor público, 1989/99

Fonte: IBGE, DIEESE e MTb.

* com relação ao PIB

 

Dos 5,1 milhões de funcionários públicos em 1997, segundo o Ministério do Trabalho, apenas 378,7 mil (7,4%) recebiam até 1 salário mínimo. Na União, o peso dos funcionários até 1 SM era de 3,2%, enquanto no conjunto dos estados era de 3,5% e na totalidade dos municípios de 13,5%.. Deve-se destacar que a União é responsável por 12,1% do total dos funcionários públicos do país, sendo os estados responsáveis por 47,2% e os municípios responsáveis por 40,7%.

7.      Considerações Finais

De acordo com a Constituição Federal de 1988, o salário mínimo deve ser fixado por lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às necessidades vitais básicas tanto do trabalhador quanto às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim. Apesar de estar prevista no  artigo 7º, inciso IV da Constituição Federal, não há dúvidas acerca do seu descumprimento pelo real poder aquisitivo do salário mínimo atual.


Gráfico 16: Brasil - relação entre o salário mínimo e a cesta básica individual de alimentos, 1989/99

Fonte: MTb e DIEESE (Ração Essencial em São Paulo)

SML = Salário Mínimo Líquido, após o desconto da previdência social

Para atender apenas ao consumo de 13 alimentos básicos para uma só pessoa, o salário mínimo mostra-se suficiente. Mas para uma família e o atendimento das demais despesas definidas pela Constituição Federal percebe-se a sua clara insuficiência. Em São Paulo, por exemlo, o valor de uma Cesta Básica composta de apenas 13 de alimentos eqüivaleu em 1999 a quase 86% do salário mínimo líquido.

Diante dessa triste realidade, a política de recuperação do salário mínimo é urgente e fundamental para um conjunto não desprezível de trabalhadores brasileiros. São cerca de 28 milhões de pessoas diretamente envolvidas com o valor do salário mínimo no Brasil, sendo 12,6 milhões de aposentados e pensionistas, 14,9 milhões de trabalhadores ativos e deste total 1,9 milhões de assalariados com carteira assinada.

Do conjunto de trabalhadores ativos que recebem o salário mínimo, a imensa maioria pertence ao setor privado (14,5 milhões ou 97,4%), pois menos de 380 mil (2,6%) encontram-se no setor público. Erra o foco, portanto, aqueles que entendem que a resistência ao aumento do salário mínimo encontra-se no setor público.

Deve-se ressaltar que o objetivo da política de salário mínimo é procurar contra-restar as tendências do mercado de trabalho que levam inexoravelmente ao rebaixamento dos salários e à maior desigualdade de rendimentos. O foco da política de salário mínimo deve ser, portanto, o mercado de trabalho.

Conforme apresentado nas páginas anteriores, o rebaixamento do valor do salário mínimo vem acompanhado do aumento da pobreza, da desigualdade de renda, da informalidade e do desemprego. De forma contrário ao que muitas vezes procura-se difundir no país, a elevação real do salário mínimo pode atuar contra o desemprego e favorecer a expansão do emprego formal, a diminuição da desigualdade de renda e a pobreza.

O Brasil pode pagar salário mínimo maior. Aliás, já pagou no passado recente, quando a economia era menos eficiente e competitiva. Embora possível, a luta em torno do valor do salário mínimo não deixa de revelar apenas parte dos interesses políticos que, desde a derrota da condução da política de salário mínimo ativa em 1964, continuam influenciando a decisão a respeito do piso do porão na economia conformada em cima dos baixos salário.

Para o âmbito das políticas sociais, no caso específico da previdência social, o valor do salário mínimo é decisivo. Assim como para os trabalhadores ativos, o aumento do valor real do salário mínimo não representa apenas e tão-somente custo (visão estática), mas sobretudo renda (visão dinâmica) e, portanto, consumo. Como o consumo agregado no país formado de baixos salários representa cerca de 82% do Produto Interno Bruto, o adicional no valor do mínimo nacional impõe não apenas o movimento do crescimento econômico como uma mudança no atual modelo econômico, através da valorização da produção e do emprego nacional, bem como a redução da pobreza e da absurda concentração de renda. Se o salário mínimo continuar achatado como comprovado nas páginas anteriores deste estudo será certamente porque outros interesses políticos permanecem se sobrepondo aos demais.

8.      Referências bibliográficas

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Resumo: CATANI, Afrâniio Mendes. O que é capitalismo?

 

INTRODUÇÃO

 

 

As duas principais teorias que tentam explicar o Capitalismo, destacam-se a de Max Weber (culturalista) e a de Karl Marx (histórica).

Max Weber  explicava o Capitalismo mediante fatores extra-econômicos. Dava fundamental importância a Reforma  Protestante de Lutero, sobretudo o calvinismo. A extrema valorização do trabalho, a aceitação de um conjunto de idéias  que contribuíam para a formação de um espírito capitalista.

Para Karl Marx  o intenso desenvolvimento industrial inglês na Revolução Industrial gerou o modo de produção Capitalista moderno; sendo que por modo de produção Karl Marx estava se referindo ao do como produzimos os meios necessários a produção e as relações mantidas ente os homens para que esse sistema se concretize. Logo, a força de trabalho se transforma mesma em mercadoria sob o capitalismo. A presença de uma classe detentora da propriedade e a presença de uma força de trabalho no qual a venda da força de trabalho seja a única fonte de subsistência, também são características deste modo de produção.

1. O CAPITALISMO EM GERAL

 

Em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber  explicitou o Capitalismo como uma civilização. A partir da análise de alguns pressupostos históricos e culturais Weber  considerava que o capitalismo também havia surgido em outros momentos históricos. Contudo, conclui que o  a “ânsia de lucro”, nada tem a ver com o capitalismo. Para ele este impulso existe em todas as classe sociais e não pode servir como elemento de diferenciação entre o capitalismo ocidental e outras formas de capitalismo.

A diferença específica entre o capitalismo ocidental e as outras formas de capitalismo reside em:

a) formação de um mercado de trabalho formalmente livre;

b) o uso da contabilidade racional.

O capitalismo poderia ser definido como um vasto complexo de instituições interligadas que trabalham com base mais na prática econômica racional do que na especulativa.

Os “princípios éticos”  que regem o capitalismo , (chamados por ele de “espírito” são encontrados principalmente na teologia protestante calvinista. Enquanto a teologia católica pregava o desprendimento da vida material, o estímulo a atividade contemplativa, e entendia o trabalho como mero artifício para manter a sobrevivência humana;  a doutrina calvinista   pregava a valorização do trabalho e da atividade profissional, e prega a renúncia dos prazeres mundanos, acabando por conciliar uma maneira de vida religiosa com a necessidade de realização sistemática do lucro.  Para o calvinista o homem deve manter um rígido controle sobre o seu tempo, visto que uma vida social intensa, constitui pecado mortal, sendo que, logo, o homem deve empregar todo os seus esforços para servir a Deus e assegurar o seu lugar como eleito. A riqueza criada, uma vez que não pode ser consumida nem gozada deve ser reinvestida, criando novas formas de trabalho. Nesse sentido, o objetivo do  capitalismo para Max Weber seria aumentar a riqueza, o que também significa uma indicação segura de que seria predestinado.

A divisão social do trabalho, segundo karl Marx,  é uma  condição prévia para a existência de uma sociedade capitalista. Isto porque o indivíduo não em todas as qualidades necessárias para satisfazer as suas  necessidades, que são múltiplas. Assim, os produtos dos diferentes trabalhos devem ser trocados. Isso significa que um produto somente  se torna mercadoria no quadro das relações sociais que impere a propriedade privada e a divisão social do trabalho.

A utilidade de qualquer mercadoria confere-lhe um valor de uso, contudo  a proporção na troca de um certo número de valores de uso de uma espécie contra um certo número de valores de uso de outra espécie constitui um valor de troca.  Ou seja, na troca, valores de uso diferentes tornam-se equivalentes quando trocados por outros produtos de trabalho.

O valor de cada mercadoria é determinado pelo tempo socialmente necessário para a produção de uma determinada mercadoria.

Quando duas mercadorias com valores de uso diferentes, quando comparadas apresentam valores de troca  iguais, dizemos que a mercadoria que representa o valor da outra chama-se equivalente. Logo, quando as pessoas produzem para a troca, produzem equivalentes.

Como nem todos os produtores  estão dispostos a trocar seus valores mercadorias, por outros produtos igualmente necessários para todos os diversos produtores, faz-se necessário  a representação de um equivalente  comum para todas as mercadorias, ou seja um equivalente geral( o ouro, o dinheiro, ou qualquer outra mercadoria). A mercadoria-dinheiro é a única mercadoria na sociedade reconhecida como equivalente geral, serve portanto, como intermediário de troca em qualquer negociação.

Contudo, esse processo simples de troca de uma mercadoria por dinheiro e este por uma diferente mercadoria  apresenta o problema de que o proprietário de dinheiro não recebe lucro no procedimento da troca, mesmo tendo o proprietário que correr o risco de não  vender as mercadorias que comprou a mesmo preço. A valorização do dinheiro no processo de troca e circulação  é chamado por Marx de mais-valia, onde a expansão do dinheiro se transforma realmente em capital, num ciclo interminável.

Para  Karl Marx, a mais-valia não pode provir diretamente da circulação das mercadorias ou do aumento dos preços.  A criação de mais-valia somente é   possível com a exploração da força de trabalho humana.  Ou seja,  sob o sistema capitalista a força de trabalho humana torna-se  uma mercadoria destituída de dinheiro e de meios de produção onde só tem apenas a sua força de trabalho para trocar no mercado por dinheiro (salário). 

Pela força de trabalho o trabalhador recebe em troca apenas um salário, que corresponde ao valor dos meios de subsistência necessários a sua sobrevivência. O capitalismo compra a força de trabalho para enriquecer, uma vez que o trabalhador produz muito mais do que consome, produzindo um excedente que é apropriado pelo capitalista, criando toda a riqueza.

Karl Marx  distinguia duas partes do capital:

·o capital constante e;

·o capital variável.

Por capital constante, Karl Marx  entendia os meios de produção (máquinas, instrumentos de trabalho, matérias-primas), que são transformados pela força de trabalho e transferidos sem modificação para o produto acabado.

Por capital variável Marx  atribuía a força de trabalho, pois o seu valor  era determinado pelo valor dos meios de subsistência.

O aumento da mais valia, portanto, seria possível em dois processos fundamentais:

1.prolongamento da jornada de trabalho (mais-valia absoluta);

2.redução do tempo de trabalho necessário (mais-valia relativa).

O capitalismo pode  obter o aumento da produtividade mediante a intensificação da produtividade em três etapas:

Þ    a cooperação simples;

Þ    a divisão do trabalho e a manufatura;

Þ    as máquinas e a grande indústria.

A introdução de algum melhoramento técnico, significando aumento da produção, o operário utiliza uma maior quantidade de meios de produção, tendo como consequência um aumento da composição orgânica do capital (razão entre os meios de produção e a força de trabalho e entre o capital constante e o capital variável).

Contudo, Marx esclarece que há uma feroz luta competitiva ente os capitalistas, que se esforçam para produzir a maior quantidade possível de mercadorias e vendê-las ao menor preço. Os capitalistas  vencedores,  donos das maiores empresas, compram as pequenas e médias empresas, caracterizando o processo de centralização do capital.

Quanto maior a produtividade do trabalho, maior será a mais valia resultante. O capital que se expande transforma parte desta mais-valia  em capital  constante e capital variável, de duas maneiras:

àampliação da escala de produção - permanecendo constante o nível técnico;

à  introdução de aperfeiçoamentos técnicos, com redução do emprego;

Essa parcela de operários que não consegue mais vender sua força de trabalho constitui o exército  industrial de reserva.

Da mesma forma, quando nem todas as mercadorias conseguem ser escoadas para o mercado e transformadas em dinheiro, ocorre uma diminuição de acumulação. O processo capitalista caracteriza-se pela presença de altos e baixos, o que constituiu o ciclo industrial (ou ciclo econômico) de Karl Marx, formado de cinco fases ou períodos,  que se seguem uma às outras:

I.        de atividade moderada;

II.     de  prosperidade;

III.    de superprodução;

IV.   de crise e;

V.      de estagnação;

De acordo com a fase, a procura e a oferta diminuem ou aumentam. Na fase da prosperidade e superprodução, a procura de trabalho pode  exceder a oferta; no período de crise ou numa restrição de produção, os trabalhadores são despedidos em grandes quantidades e o exército de reserva cresce.

 

O capitalismo desenvolveu-se lenta e complexamente a partir de uma forma anterior da sociedade de classes, o feudalismo medieval, tal como a servidão da gleba agrícola transformou em trabalho assalariado. Pode-se distinguir duas fases nesta transição:

1)       o pequeno produtor obteve parcial ou totalmente a sua emancipação das obrigações que lhe cabiam;

2)      separação da propriedade dos próprios meios de produção, tornando-se dependente do trabalho assalariado.

A expropriação do trabalhador dos seus meios de produção produziu o assalariado, mediante as seguintes formas:

a)      expulsão direta dos camponeses, com anexações de terras;

b)     empobrecimento e endividamento;

c)      crescimento da população.

A emancipação da dependência à suserania  feudal, a troca em base monetária do aumento da produção acarreta uma desintegração social e econômica da comunidade de pequenos produtores feudais.

As inovações técnicas empreendidas na  “revolução  industrial”, transferiu o processo de produção da oficina artesanal para a fábrica de centenas de trabalhadores. Ela pressupôs algum nível de acumulação capitalista e desenvolvimento das forças produtivas, sem os quais não seria possível a substituição parcial da força de trabalho por máquinas cada vez mais aperfeiçoadas,

de imediato a forma particular de produção foi dispersa e controlada por um mercador-fabricante, que  estabelecia a divisão do trabalho em fases de produção e tratava da venda do produto acabado.  Foi a fase inicial na pré-revolução do capitalismo.  Dobb considera o início do capitalismo pois o trabalhador ainda não estava plenamente proletarizado, ainda era dono dos meios de produção.

O processo de desintegração do regime do artesanato fez com que alguns artesãos fossem à ruína e outros, que conseguiram acumular algum capital converteram-se em patrões.

As novas fábricas nascidas com os avanços técnicos de fins dos séc. XVIII e XIX ocuparam a mão de obra da população excedente do campo e do  crescimento vegetativo da população para ampliar a acumulação de capital.

No final do séc.  XIX o  aparecimento da estrada de ferro da siderurgia, bem como as grandes necessidades de capital para investimentos na indústria, levaram ao surgimento de grandes indústrias com base em sociedade por ações, ao invés da sociedade familiar da fase do pré-capitalismo, e o surgimento de oligopólios e monopólios, que acabaram por reduzir o caráter competitivo do capitalismo.

Embora  a concentração de capital tenha se acirrado no final do séc. XIX não suprimiu a concorrência,  mas modificou a forma de concorrência. Ao lugar de concorrência de preços fazem-se guerras publicitárias e campanhas gigantescas de propaganda, boicotagem, contratos com firmas distribuidoreas, e acordos para eliminação do vendedor que pratique qualquer redução nos preços (cartéis), bem como a fusão de empresas numa só (trustes).

A partir desse momento o processo de invenção ficada cada vez mais limitada às Universidades. Ciência, tecnologia e indústria trabalham em nítida colaboração.

O capitalismo atual é um capitalismo de empresas industriais gigantescas que lançam seus tentáculos por toda a face da terra, aparecendo como um espectro “multinacional” onipresente e disperso.

Para endossar a progressividade do desenvolvimento do capital, os economistas clássicos como Adam Smith formulam suas teorias. Adam Smith   formula os princípios do liberalismo, onde  cabe ao Estado assumir o papel de regulador das leis  econômicas; onde cada indivíduo proprietário pudesse fazer  o que bem entendesse com suas propriedades.

Segundo Thomas R. Malthus a população cresceria num ritmo mais intenso  que o crescimento da produção de alimentos. Haveria em consequência fome no mundo. Malthus recomendava abstenção sexual e controle dos nascimentos para evitar a destruição do prognóstico de bem estar futuro da humanidade e o enriquecimento da nação.

David Ricardo formulou a  “lei dos rendimentos decrescentes”, segundo a qual chegado a um ponto de concentração capitalista os rendimentos tornariam-se decrescentes. A saída para evitar a baixa da taxa de lucro seria manter os salários ao nível da subsistência.

Karl Marx  reconhecia a tendência à eliminação da concorrência e  a concentração do capital, que terminaria em poucas mãos, constituindo o cume de uma pirâmide absolutamente separada da base. A constituição de monopólios e oligopólios pauperizaria  o trabalhador a tal ponto que somente uma revolução do proletariado poderia inverter a pirâmide e resolver a contradição inata do capitalismo em socializar a produção e privatizar  o acesso aos meios  de produção.

Para os clássicos seria possível formular as leis dos ciclos econômicos , onde apareceriam as crises típicas do capitalismo, mas onde o próprio jogo do mercado permitiria superar os movimento depressivos e alcançar a estabilidade econômica.

No início do século XX o jogo espontâneo do mercado é incapaz de contornar uma crise que determinou baixíssimos níveis de atividade econômica e emprego, resultando no “crack de 1929”. Foi à partir do século que o Estado começa a investir na economia através da ampliação dos gastos, que acabam funcionando como estabilizadores, prevenindo e adiando as crises.

Na fase monopolista do capitalismo, o alto grau de concentração de poder econômico alcançado, requer controle político do instrumento do Estado pelos monopólios.

 

2. O CAPITALISMO NO BRASIL

 

A passagem da economia colonial a economia exportadora  está relacionado as relações sociais que lhe estão subjacentes: trabalho compulsório a trabalho assalariado, economia colonial a economia primário-exportadora.

Encontra-se presente na economia colonial  dois setores:

·        o setor exportador - produz em larga escala produtos  de alimentos destinados ao mercado mundial;

·        e o setor produtor -  organizado à base de trabalho servil, ou por produtores independentes.

Assim sendo, a economia colonial define-se altamente especializada e complementar a economia metropolitana, evidenciando-se no padrão de comércio caracterizado pela exportação de produtos coloniais e importação de produtos manufaturados e, no caso de economias fundadas na escravidão, escravos.

Absolutismo, sociedade estamental, capitalismo comercial, política mercantilista, expansão ultramarina e colonial são partes  complementares de um todo complexo que se interpenetram.  Deste modo, a economia colonial foi organizada para a cumprir a função de instrumento de acumulação primitiva de capital.. Os mecanismo de exploração das colônias  permitiam:

1.      que a economia colonial produzisse um excedente;

2.      a criação de mercados  de consumo;

3.      apropriação  do quase integral do lucro pela burguesia metropolitana.

O exclusivo comercial portanto exigia que não concorresse com a produção metropolitana; através deste artifício o excedente gerado nas colônias era transferido à burguesia comercial metropolitana, mediante os baixos preços de aquisição dos produtos coloniais e a exclusividade de venda de produtos  metropolitanos. A produção colonial também exigia o trabalho compulsório, uma vez que a força de trabalho precisava  estar rebaixada ao máximo o custo de reprodução; em caso de trabalho assalariado, existiriam muitos problemas, pois a abundância de terras, possibilitava aos colonos a produção em suas próprias terras, e exigia que fossem pagos salários elevados.

Assim, economia colonial e economia manufatureira, trabalho servil e trabalho assalariado  são faces de uma mesma moeda.

A acumulação obtida durante com a exploração colonial possibilitou a Revolução Industrial,  promovendo doravante a liquidação da economia colonial, que guarda a partir deste momento a manter uma relação contraditória.

A periferia precisa nesse momento a produzir produtos primários de exportação em massa, visando obter preços baixos e não mais simplesmente a produção agrícolas e minerais preciosos. Há pelo menos 3 contradições na passagem do capitalismo colonial ao industrial:

1. entre capitalismo industrial e forma de trabalho compulsório;

2. entre capital industrial e monopólio do comércio colonial;

3.  entre capital industrial e exclusivo metropolitano.

O início da fase do capitalismo monopolista, por volta de 1880 e 1900 é marcado pelos seguintes traços fundamentais:

¨    intensificação do processo de concentração;

¨    monopolização dos principais mercados industriais;

¨    associação do capital bancário e industrial - o capital financeiro;

¨    quebra do monopólio inglês, com o surgimento de outras potências industriais;

¨    intensificação da exportação de capitais e concorrência por áreas de investimentos;

¨    surgimento do colonialismo monopolista e  final da repartição do mundo entre as potências capitalistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ARTIGOS DIVERSOS

 

 

 

 

 

 

Respostas do Chefe Seattle, em 1854, ao presidente dos Estados Unidos sobre a proposta de comprar grande parte de suas terras, oferecendo em contrapartida a concessão de uma outra “reserva”.

 

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem - todos pertencem à mesma família. Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.

O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós. Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.

Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta d aterra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seus pais e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda. Não há um lugar quieto na cidade do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro – o animal, a árvore, o homem, todos compartilhamos o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com todas a vidas que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.

Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, importei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.

Vocês devem ensinar a suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem a suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.

Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e, por alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnadas do cheiro de muitos homens e a visão dos morros obstruída por fio que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência.

 

 

Pr. Roberto Carlos Cruvinel

cruvinel@zip.net

www.uniaoevangelica.com.br/teolpvsr

ESTUDO SOBRE A ATUAÇÃO POLÍTICA DA IGREJA

 

1.       INTRODUÇÃO

A cada pleito eleitoral é comum observarmos entre a comunidade cristã as polarizações no que concerne a participação política da igreja.

Para muitos não existe a diferenciação entre ser politizado e politiqueiro. Alguns, a cada nova eleição trabalham tão ferrenhamente para alcançar seus objetivos "políticos" que, não raras vezes, esquecem seu compromisso com Cristo e Sua Palavra; outros, por sua vez, crêem não ter nenhuma responsabilidade político-social com sua comunidade, sua cidade e sua nação, entendendo que irmãos que se "misturam" com política estão fora da direção de Deus e até "caindo" da graça.

Um erro é omitir-se politicamente, outro é a participação indevida do cristão com ideologias ou práticas que são contrárias à nossa fé e os padrões de comportamento cristão (Salmo 1.1; Amós 3.3).

De acordo com o Dicionário Eletrônico Michaelis, eis a definição de política:

política

s. f. 1. Arte ou ciência de governar. 2. Aplicação desta arte nos negócios internos da nação (política interna) ou nos negócios externos (política externa). 3. Prática ou profissão de conduzir negócios políticos. 4. Conjunto dos princípios ou opiniões políticas. 5. Astúcia, maquiavelismo. 6. Cerimônia, cortesia, urbanidade.

No grego, temos as palavras politei/a (politeía – aparecendo 2 vezes no NT grego), traduzida por comunidade, polij (pólis – aparecendo 162 vezes no NT grego), traduzida por cidade, e poli/thj (polítês – aparecendo 171 vezes no NT grego) traduzida por cidadãos, concidadãos e próximo.

Então, fazer política, é gerir os negócios públicos, representar o povo.

  1. CONSIDERAÇÕES

Polarizações a parte, creio que Bíblia apresenta orientações com relação à participação política da igreja no contexto em que vive. Vejamos algumas considerações;

o        Deus se importa com o estado

"Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na usa paz vós tereis paz." Jeremias 29.7

"Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda a piedade e respeito." 1 Timóteo 2.1-3

"Orai pela paz de Jerusalém! Sejam prósperos os que te amam." Salmo 122.6

o        Política não é pecado

"Não havendo sábia direção, cai o povo , mas na multidão de conselheiros há segurança." Provérbios 11.14

o        Cada um dará conta de si – Gl 6.7; 2 Co 5.10

1.       NA ATUAÇÃO POLÍTICA NÃO PODE HAVER:

o        Comprometimento de nossa obediência à Palavra de Deus.

4.   QUEM É A IGREJA?

Nós não somos um "povinho" nem objeto de manipulação de ninguém. Somos, sim, sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16) – leia Deuteronômio 28.13

5.   A POLÍTICA CONFORME NOS APRESENTA A BÍBLIA.

Os 10 mandamentos (Êxodo 20) tornaram-se uma espécie de constituição em Israel. As leis que nos regem são feitas por homens e seria salutar que esses homens fossem comprometidos com Deus, portanto, o voto, que é como uma procuração para que alguém fale em nosso lugar, nossa representação, deve ser efetuado com muita responsabilidade. Não são poucos em nossos dias os que vendem literalmente seus votos, sem a menor responsabilidade, como um ato mercenário. Mas em quem votar?

A Bíblia diz:

"Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé." Gálatas 6.10

"...homem estranho, que não seja dentre os teus irmãos, não estabelecerás sobre ti, e sim um dentre eles."Deuteronômio 17.15b leia os versículos 14-20

Algum dos personagens bíblicos estavam envolvidos com a política? Vejamos:

o        Moisés, legislador; Éster, rainha; Melquisedeque, rei e sacerdote; Neemias, copeiro do rei, José de Arimatéia, senador honrado (Mc 15.43).

o        Quem outorgou o título de rei à Davi? Deus; porém também usou vasos humanos (1 Sm 16.1,13; 2 Sm 5.1-3).

o        Deus nos deu sabedoria para fazer o bem – Tiago 4.17

o        E aos "amigos do evangelho"? leia 2 Pe 2.3 – Cuidado para não negociar o seu voto e colocar um ímpio sem o temor de Deus no poder – Provérbios 25.26. Em minha opinião, é preferível votar em um irmão, realmente comprometido com Deus e seu trabalho, do que pactuar com a impiedade por dinheiro – Provérbios 29.2.

 

10.COMO DEVE SER O IRMÃO CANDIDATO?

"Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados. "

Provérbios 31.8,9

Este irmão deve ter convicção de sua fé, e também ser observador da Palavra de Deus (Js 1.8,9), ter capacidade para exercer o cargo público que pretende.

 

Outros textos para leitura: Salmo 33.12; Malaquias 3.18.

 

Autor desconhecido

CIRCULO DE AMOR

 Ele quase nao viu a senhora, com o carro parado no acostamento. Mas
 percebeu que ela precisava de ajuda. Assim parou seu carro e se  aproximou.
 O carro dela cheirava a tinta, de tao novinho. Mesmo com o sorriso que  ele
 estampava na face, ela ficou preocupada. Ninguem tinha parado para  ajudar
 durante a ultima hora. Ele iria aprontar alguma? Ele nao parecia seguro,

 parecia pobre e faminto. Ele pode ver que ela estava com muito medo e  disse:
 - "Eu estou aqui para ajudar madame. Por que nao espera no carro onde  esta
 quentinho? A proposito, meu nome e Bryan".

 Bem, tudo que ela tinha era um pneu furado, mas para uma senhora era   ruim o
 bastante. Bryan abaixou-se, colocou o macaco e levantou o carro. Logo   ele
 ja estava trocando o pneu. Mas ele ficou um tanto sujo e ainda feriu uma

 das maos. Enquanto ele apertava as porcas da roda ela abriu a janela e
 comecou a conversar com ele. Contou que era de St.Louis e so estava de
 passagem por ali e que nao sabia como agradecer pela preciosa ajuda.

 Bryan apenas sorriu enquanto se levantava. Ela perguntou quanto o devia.

 Qualquer quantia teria sido muito pouco para ela. Ja tinha imaginado    todos
 as terriveis coisas que poderiam ter acontecido se Bryan nao tivesse   parado.

 Bryan nao pensava em dinheiro. Aquilo nao era um trabalho para ele.   Gostava
 de ajudar quando alguem tinha necessidade e Deus ja lhe ajudara   bastante.
 Este era seu modo de viver e nunca lhe ocorreu agir de outro modo. Ele   respondeu:
 - "Se realmente quiser me reembolsar, da proxima vez que encontrar  alguem
 que precise de ajuda, de para aquela pessoa a ajuda que precisar". E 

 acrescentou: "... e pense em mim".

 Ele esperou ate que ela saisse com o carro e tambem se foi. Tinha sido  um
 dia frio e deprimido, mas ele se sentia bem, indo pra casa,  desaparecendo
 no crepusculo.

 Alguns milhas abaixo a senhora encontrou um pequeno restaurante. Ela   entrou
 para comer alguma coisa. Era um restaurante sujo. A cena inteira era  estranha para ela.

 A garconete veio ate ela e trouxe-lhe uma toalha limpa para que pudesse
 esfregar e secar o cabelo molhado e lhe dirigiu um doce sorriso, um  sorriso
 que mesmo os pes doendo por um dia inteiro de trabalho nao pode apagar.
 A
 senhora notou que a garconete estava com quase oito meses de gravidez,
 mas
 ela nao deixou a tensao e as dores mudarem sua atitude. A senhora ficou
 curiosa em saber como alguem que tinha tao pouco, podia tratar tao bem a  um
 estranho. Entao se lembrou de Bryan.

 Depois que terminou a refeicao, enquanto a garconete buscava troco para
 a
 nota de cem dolares, a senhora se retirou. Ja tinha partido quando a
 garconete voltou. A garconete ainda queria saber onde a senhora poderia
 ter
 ido quando notou algo escrito no guardanapo, sob o qual tinha mais 4  notas
 de $100 dolares. Havia lagrimas em seus olhos quando leu o que a senhora

 escreveu. Dizia:
 "Voce nao me deve nada, eu ja tenho o bastante. Alguem me ajudou uma vez  e
 da mesma forma estou lhe ajudando. Se voce realmente quiser me  reembolsar
 nao deixe este circulo de amor terminar com voce". Bem, havia mesas para

 limpar, acucareiros para encher, e pessoas para servir.

 Aquela noite, quando foi para casa e deitou-se na cama, ficou pensando
 no
 dinheiro e no que a senhora deixou escrito. Como pode aquela senhora
 saber
 o quanto ela e o marido precisavam disto? Com o bebe para o proximo mes,

 estava dificil. Ela virou-se para o preocupado marido que dormia ao  lado,
 deu-lhe um beijo macio e sussurrou:
 "Tudo ficara bem; eu te amo, Bryan".

 

 

AS 95 TESES DE LUTERO

Contra o comércio das indulgências

- 31 de outubro de 1517 -

Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade, discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Rev. Padre Martinho Lutero, o que segue. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito.

Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

1ª Tese

Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo e ininterrupto arrependimento.

2ª Tese

E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo dos sacerdotes.

3ª Tese

Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de mortificação da carne.

4ª Tese

Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até à entrada para a vida eterna.

5ª Tese

O papa não quer e não pode dispensar de outras penas além das que impôs ao seu alvitre ou nem acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6ª Tese

O papa não pode perdoar dívida, senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus, ou então o faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida em absoluto deixaria de ser anulada ou perdoada.

7ª Tese

Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao ministro, seu substituto.

8ª Tese

Cânones poenitentiales, que são as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas são impostos aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.

9ª Tese

Eis por que o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluindo este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema.

10ª Tese

Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõe aos moribundos penitências canônicas ou para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.

11ª Tese

Este joio, que é o de transformar a penitência e satisfação, prevista pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado enquanto os bispos dormiam.

12ª Tese

Outrora canônica poenae, ou seja, penitência e satisfação por pecados cometidos, eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.

13ª Tese

Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.

14ª Tese

Piedade ou amor imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte, necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menos o amor, tanto maior o temor.

15ª Tese

Este temor e espanto em si tão só, sem nos referirmos a outras coisas, basta para causar o tormento e o horror do purgatório, pois se avizinham da angústia do desespero.

16ª Tese

Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.

17ª Tese

Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, também deve crescer e aumentar o amor.

18ª Tese

Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas razões e nem pela Escritura, que as almas do purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.

19ª Tese

Parece ainda não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem mais por ela, não obstante nós termos esta certeza.

20ª Tese

Por isso o papa não quer dizer e nem compreender com as palavras "perdão plenário de todas as penas" o perdão de todo o tormento, mas tão só as penas por ele impostas.

21ª Tese

Eis por que erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante indulgência do papa.

22ª Tese

Com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas do purgatório das que, segundo os cânones da igreja, deviam ter expiado e pago na presente vida.

23ª Tese

Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muitos poucos.

24ª Tese

Logo, a maioria do povo é ludibriado com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.

25ª Tese

Exatamente o mesmo poder geral que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.

26ª Tese

O papa faz muito bem em não conceder o perdão às almas em virtude do poder das chaves (coisa que não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.

27ª Tese

Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28ª Tese

Certo é que, no momento em que a moeda soa na caixa, vem lucro, e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

29ª Tese

E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com S. Severino e Pascoal.

30ª Tese

Ninguém tem certeza da suficiência do arrependimento e pesar verdadeiros, muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.

31ª Tese

Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.

32ª Tese

Irão para o diabo, juntamente com os seus mestres, aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

33ª Tese

Há que acautelar-se muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dádiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.

34ª Tese

Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória, estipulada por homens.

35ª Tese

Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36ª Tese

Tudo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.

37ª Tese

Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.

38ª Tese

Entretanto se não devem desprezar o perdão e a distribuição deste pelo papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão consiste numa declaração do perdão divino.

39ª Tese

Ë extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e, ao contrário, o verdadeiro arrependimento e pesar.

40ª Tese

O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo; mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para tanto.

41ª Tese

É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal, para que o homem singelo não julgue erradamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.

42ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgências de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.

43ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos, proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência.

44ª Tese

É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.

45ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgência do papa, mas desafia a ira de Deus.

46ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.

47ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos ser a compra de indulgência livre e não ordenada.

48ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.

49ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.

50ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgência, preferiria ver a basílica de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51ª Tese

Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por um dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgência, vendendo, se necessário, a própria basílica de São Pedro.

52ª Tese

Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências e o próprio papa oferecessem sua alma como garantia.

53ª Tese

São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a palavra de Deus nas demais igrejas.

54ª Tese

Comete-se injustiça contra a palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da palavra do Senhor.

55ª Tese

A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a coisa menor, com um toque de sino, uma pompa, uma cerimônia, enquanto o evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem toques de sino, centenas de pompas e solenidades.

56ª Tese

Os tesouros da igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecidos na Igreja de Cristo.

57ª Tese

É evidente que não são bens temporais, porquanto muitos pregadores não os distribuem com facilidade, antes os ajuntam.

58ª Tese

Também não são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto este sempre são suficientes, e, independente do papa, operam graça do homem interior e são a cruz, a morte e o inferno do homem exterior.

59ª Tese

São Lourenço chama aos pobres, os quais são membros da Igreja, tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.

60ª Tese

Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, que lhe foram dadas pelo merecimento de Cristo.

61ª Tese

Evidente é que, para o perdão das penas e para a absolvição em determinados casos, o poder do papa por si só basta.

62ª Tese

O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus.

63ª Tese

Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.

64ª Tese

Enquanto isso o tesouro das indulgências é notoriamente o mais apreciado, porque faz com que os últimos sejam os primeiros.

65ª Tese

Por essa razão os tesouros evangélicos foram outrora as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

66ª Tese

Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.

67ª Tese

As indulgências, apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça, decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.

68ª Tese

Nem por isso semelhante indulgência é a mais ínfima graça, comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69ª Tese

Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda reverência.

70ª Tese

Entretanto tem muito maior dever de conservar abertos os olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não apregoem os seus próprios sonhos.

71ª Tese

Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.

72ª Tese

Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.

73ª Tese

Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.

74ª Tese

Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob pretexto de indulgências, prejudicam a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agirem.

75ª Tese

Considerar a indulgência do papa tão poderosa, a ponto de absolver alguém dos pecados, mesmo que (coisa impossível de se expressar) tivesse deflorado a mãe de Deus, significa ser demente.

76ª Tese

Bem ao contrário afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo pode anular o menor pecado venial no que diz respeito a culpa que representa.

77ª Tese

Afirmar que nem mesmo São Pedro, se no momento fosse papa, poderia dispensar maior indulgência, constitui insulto contra São Pedro e o papa.

78ª Tese

Dizemos, ao contrário, que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o evangelho, dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1 Corinto 12.6-9.

79ª Tese

Alegar ter a cruz de indulgências, erguida e adornada com as armas do papa, tanto valor como a própria cruz de Cristo é blasfêmia.

80ª Tese

Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas desta atitude.

81ª Tese

Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a indulgência, torna difícil até homens doutos defenderem a honra e dignidade do papa contra a calúnia e as perguntas mordazes e astutas dos leigos.

82ª Tese

Haja vista exemplo como este: Por que o papa não livra duma só vez todas as almas do purgatório, movido pela santíssima caridade e considerando a mais premente necessidade das mesmas, havendo santa razão para tanto, quando, em troca de vil dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, livra inúmeras delas, logo por motivo bastante infundado?

83ª Tese

Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para esse fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou prebendas oferecidos em favor dos mortos, quando já não é justo continuar a rezar pelos que se acham remidos?

84ª Tese

E: Que nova santidade de Deus e do papa é esta a consentir a um ímpio e inimigo resgate uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não livrar esta mesma alma piedosa e amada por Deus do seu tormento por amor espontâneo e sem paga?

85ª Tese

E: Por que os cânones de penitência, isto é, os preceitos de penitência, que faz muito caducaram e morreram de fato pelo desuso, tornam a remir mediante dinheiro, pela concessão de indulgência, como se continuassem em vigor e bem vivos?

86ª Tese

E: Por que o papa, cuja fortuna é maior do que a de qualquer Creso, não prefere construir a basílica de São Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de cristãos pobres?

87ª Tese

E: Que perdoa ou concede o papa pela sua indulgência àqueles que pelo arrependimento completo tem direito ao perdão ou indulgência plenária?

88ª Tese

Afinal: Que benefício maior poderia receber a igreja se o papa, que atualmente o faz uma vez ao dia cem vezes ao dia concedesse aos fiéis este perdão a título gratuito?

89ª Tese

Visto o papa visar mais a salvação das almas mediante a indulgência do que o dinheiro, por que razão revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, quando tem sempre as mesmas virtudes?

90ª Tese

Desfazer estes argumentos muito sutis dos leigos, recorrendo apenas à força e não por razões sólidas apresentadas, significa expor a igreja e o papa ao escárnio dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91ª Tese

Se, portanto, a indulgência fosse apregoada no espírito e sentido do papa, estas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92ª Tese

Fora, pois, com todos este pregadores que dizem à igreja de Cristo: Paz! Paz! Sem que haja paz!

93ª Tese

Abençoados, porém, sejam todos os pregadores que dizem à igreja de Cristo: Cruz! Cruz! Sem que haja cruz!

94ª Tese

Admoeste-se os cristãos a que se empenhem em seguir seu Cabeça, Cristo, através da cruz, da morte e do inferno;

95ª Tese

E desta maneira mais esperem entrar no reino dos céus por muitas aflições do que confiando em promessas de paz infundadas.

 

 

 

Derrotas e Vitórias - A arte de vencer

Há cerca de 80 anos, um grupo de rapazes  brincava
nas ruas de um subúrbio de Londres, quando ocorreu
um desastre em que o menor deles fraturou a perna.
Durante meses, permaneceu estendido no  leito  com
um peso atado ao pé.  Mas,  mesmo  assim,  não  se
curou por completo. Depois de algum tempo, a perna
teve de ser quebrada de novo. Foi uma  experiência
terrível. O pequeno quase desfaleceu de terror.  A
experiência  se  lhe  apresentava  como  a   maior
tragédia  da  vida.  Mais    tarde,    passou    a
interpretá-la  de  maneira  muito  diferente.  Não
tendo nada que fazer durante o  longo  período  de
hospitalização, dedicou-se a leitura. Leu todos os
livros que lhe chegaram às mãos. Era filho  de  um
jogador profissional que, nas horas vagas, dirigia
uma pequena venda prestes a falir. Vivia o pequeno
no ambiente de víveres, sacos de carvão, bebidas e
outras coisas mais que comumente se encontram  nos
armazéns. Saindo do hospital, onde o convívio  com
os  livros  criara  ambiente  novo  para  o    seu
espírito, não pôde mais suportar  a  atmosfera  da
casa paterna. Vivera durante  muito  tempo  em  um
mundo ideal,  completamente  diverso  daquele  que
agora lhe parecia sórdido. E aconteceu ainda outra
coisa. Seu pai faliu e ele teve de empregar-se  em
outro armazém, mas não pôde  adaptar-se  ao  meio.
Dentro de pouco tempo,  arranjou  emprego  em  uma
farmácia.  No  fim  de  um  mês  foi    despedido.
Colocou-se em  outra  casa  comercial.  Um  dia  o
patrão, à hora do  serviço,  o  encontrou,  em  um
canto, lendo Herbert Spencer. Outra vez foi para a
rua. Estava de tal modo  apaixonado  pelos  livros
que só com eles podia conviver. Essa personagem  é
hoje conhecida  na  literatura  mundial.  Escreveu
setenta e cinco livros. é Herbert George Wells.  E
ele costumava dizer que a perna quebrada é que lhe
deu uma reviravolta na direção da vida.  Antes  do
doloroso acidente,  suas  tendências  eram  apenas
para o  esporte.  O  repouso  forçado  é  que  lhe
transformou a existência. Wells é  admirado  pelos
que lhe conhecem  a  biografia,  não  apenas  como
grande escritor, mas também como um caráter dotado
de energias suficientes para transformar  uma  das
maiores derrotas da vida em brilhante vitória.  Aí
é que está uma das suas mais belas qualidades.

 

QUEM DISSE QUE VOCÊ É INDIGNO?
(Who Told You You Are Unworthy?)

David Wilkerson

   

    Quem disse que você é indigno -- que você é imprestável, que não pode ser
    usado, que é inútil para Deus? Quem fica lembrando que você é fraco,
    impotente, um fracasso total? Quem disse que você nunca alcançará os padrões
    de Deus?
    Todos sabemos de onde vem esta voz: é a voz do próprio diabo! É ele quem lhe
    mantém convencido de que Deus está bravo com você. Você ouve as suas
    mentiras o dia inteiro - e elas vem diretamente das profundezas do inferno!
    Quem diz aos integrantes do coro que eles não são dignos de cantar louvores
    na casa de Deus? Quem diz aos músicos que eles não são dignos de tocar
    instrumentos no culto? Quem diz aos presbíteros, às recepcionistas, aos
    professores da escola dominical, aos voluntários, às pessoas do ministério,
    às pessoas nos bancos da igreja, que elas não têm valor? Quem recorda todos
    os pecados e falhas, acusando-os: "Você tem mãos sujas, coração impuro! Você
    não tem o direito de tocar nas coisas santas de Deus. Você é uma vergonha
    para o Senhor!"?
    Esta é a voz acusadora do diabo -- o acusador dos irmãos! Ele diz: "Deus não
    vai lhe usar enquanto você não se assentar e colocar em ordem as suas
    coisas. Você não pode ir à Sua casa enquanto não for digno!"
    Neste mesmo instante muitas pessoas que estão lendo esta mensagem foram
    convencidas pelo diabo de que nunca serão dignas de serem usadas por Deus.
    Você é uma delas? Talvez você se sinta indigno de ser chamado filho do
    Senhor. Quando olha para a sua vida espiritual, tudo o que vê é
    inconsistência. E o inimigo continua lhe enviando um bombardeio constante de
    mentiras - recordando-lhe seus fracassos, sempre acusando seu espírito.
    Agora você começa a pensar: "Amo o Senhor com tudo que há em mim. Mas ainda
    há fracassos em minha vida! Não sou um servo consistentemente fiel. Tenho
    que combater as grandes tentações, coisas que me desencorajam. Nunca estarei
    à altura. Nunca vou ser o que Deus quer que eu seja - e o que quero ser!"
    Permita-me parar aqui e confessar algo a você: em nenhum momento, em todos
    os meus anos de ministério, me senti digno do meu chamado como pregador!
    Através do meu serviço ao Senhor, tenho sido bombardeado por acusações de
    que sou indigno de falar por Deus - indigno de pregar, de ensinar os outros,
    de ser um líder.
    Mas não sei de nenhum cristão sincero, usado por Deus, que não tenha
    experimentado isto. William Bradford, o grande ministro Puritano, disse:
    "Acho que tenho o coração mais negro de toda Europa." E seguia ouvindo as
    acusações de que era completamente indigno. E cada vez que falava ou
    pregava, algo remexia no seu estômago - uma ansiedade, um temor, uma
    inquietude quanto a estar diante das pessoas. Esse grande pregador sentia
    uma sensação inacreditável de indignidade!
    É claro que em nossa carne somos indignos. Nunca podemos ser dignos por nós
    mesmos. Mas muitos crentes permitem que Satanás roube deles uma vida
    preciosa ao acreditar em suas mentiras de como Deus os vê. Crêem que jamais
    poderão ser dignos à Sua vista.
    Quando tais cristãos abatidos ouvem duros sermões sobre pecado e
    contemporização, imediatamente mergulham na auto-condenação. Eles pensam:
    "Continuo fraco. Não tenho vitória total. Me acho em constante conflito!"
    Logo outro pensamento inunda suas mentes: "Você precisa dar uma parada -
    cessar todo serviço - até que coloque as coisas em ordem. Você será julgado
    se enquanto neste conflito, continuar tentando fazer o trabalho de Deus e O
    adorando!"
    Ocasionalmente, os pastores têm de pedir aos obreiros da igreja que se
    afastem por uma temporada - isto é, que se afastem de seus deveres
    ministeriais - para colocarem certos aspectos de suas vidas em ordem. Na
    igreja de Times Square fazemos isto quando alguém está cego em relação ao
    seu pecado, e não vê que está errado. E às vezes temos que fazê-lo quando
    uma pessoa vive abertamente, ostensivamente em pecado, sem sinal de
    arrependimento. Vai ser preciso trabalhar com isto.
    Mas estou falando acerca de algo completamente diferente - algo com o qual
    cada cristão deve tratar. O fato é que se cada filho de Deus escutasse as
    acusações do diabo, todos os ministérios teriam que acabar por completo! Não
    haveria igreja - porque não haveria ninguém no púlpito, ninguém sentado no
    lugar reservado ao coro, ninguém como líder, ninguém ensinando na escola
    dominical - e ninguém na congregação! Todos seríamos deixados fora das
    bênçãos de Deus - e o Senhor não receberia a adoração que deve receber de
    nós.

 

 

    Há Três Perguntas Que Quero Lhe Fazer:

 

 

    1ª pergunta: Satanás foi capaz de impedir que você abrisse este sermão? Suas
    acusações habituais fizeram com que você quisesse evitar de ler minha
    mensagem? É evidente que não, uma vez que você está agora mesmo lendo-a.
    2ª pergunta: o diabo foi capaz de detê-lo a caminho da igreja, enchendo sua
    cabeça de acusações, fazendo-o dar meia volta e voltar para casa? Ele
    inundou você com pensamentos tais como: "Você não pode ir à igreja hoje -
    não pode cantar no coro, ensinar na escola dominical, servir a Santa Ceia,
    sentar com a congregação e adorar - porque você não tem as coisas em ordem!
    Você ainda tem inconsistência, desejos pecaminosos na vida. Seu coração não
    está pronto para ouvir a palavra pregada"?
    Ainda que você não tenha ido à igreja em um determinado domingo, estou
    seguro de que o diabo não foi capaz de mantê-lo afastado de lá por muito
    tempo.
    3ª pergunta: depois que você chegou à igreja, cumprimentou uns poucos santos
    e se preparou para entrar no santuário, o diabo impediu você de entrar?
    Encheu ele a sua cabeça com pensamentos tais como: "Não sou digno de adorar
    o Senhor hoje. Tenho ainda muitos conflitos, demasiadas lutas não
    resolvidas. Não posso levantar minhas mãos em adoração enquanto estas coisas
    se passam dentro de mim!"
    Aí, você pegou o casaco, reuniu a família e voltou para casa? Provavelmente
    não. É muito provável que Satanás tenha deixado você tranqüilo neste
    momento. Você simplesmente tomou assento e decidiu adorar, sem ser molestado
    por nada.
    Mas depois de pouco tempo, o acusador começou a mover-se. Ele esperou até o
    cântico de abertura - quando você abriu a sua boca para louvar o Senhor - e
    lhe golpeou com suas mentiras mais fortes!
    Veja, Satanás sabe que não pode lhe impedir de sair da cama, que não pode
    impedi-lo de ir à igreja. E sabe que não pode fazer você voltar uma vez
    estando lá. Assim é que reserva todo o seu veneno de serpente para o momento
    em que você está em pé diante dos outros, cantando "Bendito é o nome do
    Senhor! Engrandeço Seu nome. Majestade!"
    Satanás sabe que nos deleitamos em louvar a Deus. E sabe que Deus tem grande
    deleite com nossa adoração. O Senhor disse ao Seu povo: "Para os santos que
    estão na terra, e para os íntegros, é toda a minha complacência" (Salmo
    16:3). O Senhor se deleita em nossa adoração!
    E isto é o que o diabo busca em você. Ele sabe que não pode levá-lo aos
    braços de algum alcoviteiro ou de uma prostituta. Ele não pode seduzi-lo a
    ir a algum bar, nem a um clube noturno. Não - ele sabe que seu grande prazer
    é adorar a Deus. E ele quer, mais que qualquer coisa, destruir esta
    adoração!
    É por isto que ele manda suas mais violentas potestades e poderes acusarem
    você na própria casa de Deus. Creio que espíritos mentirosos estão em
    atividade contra todo crente fiel que congregue numa igreja onde o evangelho
    é pregado sem concessões.
    Os espíritos mentirosos tentam de tudo para sabotar sua adoração. Suas
    acusações nunca cessam: "Você não tem direito de adorar um Deus santo. Você
    ainda não possui a vitória total, mesmo depois de todos estes anos. Seu
    prazer é falso! Você está fingindo - é tudo aparência! Repare em você:
    cantando e louvando a Deus, aparentando ser tão piedoso. Falso, indigno,
    pecador! Sente-se e fique quieto. Se as pessoas soubessem quem realmente
    você é - as piadas que escuta no seu trabalho, as coisas ruins que fala para
    sua esposa, a forma como grita com seus filhos. Tem Jesus nos lábios, mas
    Judas no coração!"
    Você é agitado por uma voz sibilante. Então o sermão começa - e em tudo que
    o pregador diz, e durante a pregação, vem o som sibilante outra vez:
    "Ah! Ele está falando a respeito de você outra vez, lhe expondo. Você não
    consegue ser fiel a Deus nem por uma semana. Quando alcança vitória, dura
    poucos dias - e logo volta outra vez aos velhos caminhos. Você nunca vai
    mudar. Você é um estorvo a este corpo de crentes. Você vai destruir a unção
    daqui!"
    Você fica condenado por estas mentiras! O diabo triunfou ao fazê-lo crer que
    Deus está furioso com você - que você entristeceu o Espírito Santo. E é isso
    exatamente o que Satanás quer que aconteça!
    Recentemente li a história de um homem que conheço, evangelista de tenda.
    Este ministro foi falsamente acusado de evasão fiscal. Ele era totalmente
    inocente - de fato, foi finalmente inocentado. Mas antes disso acontecer,
    passou três meses na prisão.
    Falo aqui a respeito de sentir-se indigno: este homem foi humilhado. Ele
    havia sido um pregador bem conceituado, um profeta, um ganhador de almas -
    mas naquele momento todos lhe viam como um ladrão. Foi insultado e
    ridicularizado até pelos seus companheiros de cela. Quando caminhava pelo
    jardim da prisão, pensava: "Devo ter feito algo terrível - algo que não sei
    - que irritou tanto o Senhor par que fizesse isto comigo. Ele fez de mim um
    espetáculo diante do mundo inteiro. Não entendo!"
    Ele sentia-se tão indigno, tão abatido, que considerou a hipótese de
    suicídio. Então, em seu momento mais fraco - sentindo-se totalmente inútil,
    abandonado por Deus - o Espírito Santo veio à sua cela. O Espírito lhe
    lembrou esta passagem: "Porque o Filho do homem não veio para perder as
    almas dos homens, e sim para salvá-las..." (Lucas 9:56). O Senhor falou
    suavemente a este fatigado homem: "Meu filho, não lhe mandei aqui para
    destrui-lo. Eu o trouxe aqui para lhe salvar."
    Repentinamente o Espírito desceu sobre o ministro e o incitou a orar pelos
    enfermos. Ele começou a orar todos os dias pelos seus companheiros de cela -
    e eles começaram a lhe pedir oração. Logo, até os oficiais da prisão o
    visitavam para que orasse pelos membros de suas famílias. Rapidamente chegou
    a ser um preso exemplar - um dos mais admirados na história daquele sistema
    carcerário.
    Uma outra coisa assombrosa aconteceu. Este ministro saiu da escola ainda em
    tenra idade, e nunca aprendeu a ler. Tudo o que ele sabia eram certas
    passagens da Bíblia. Ao estudar as escrituras em sua cela, as palavras
    começaram a abrir-se para ele - e aprendeu a ler. Começou a estudar a
    palavra de Deus, e o Espírito lhe abriu a Bíblia de uma forma milagrosa.
    Este homem saiu da prisão como um herói. Experimentou um toque de Deus que
    jamais havia sentido antes em sua vida. Hoje prega à multidões por todas as
    partes do mundo. E pensar que Satanás tentou destruiu este maravilhoso servo
    dizendo-lhe que não tinha valor!

 

 

    Se Vamos Resistir às Mentiras do Diabo,
    Temos Que Aceitar Que Deus Não Quer Nos Destruir !

 

 

    Devemos começar com esta verdade! Deus não existe para nos destruiu
    permitindo as tentações em nossa vida. Não - Ele nos amou mesmo quando ainda
    estávamos em pecado, distante dEle. Ele não é contra nós, e sim por nós. Ele
    só quer nos fazer o bem!
    Sei sobre o que estou falando. Anos atrás tive que combater as mentiras de
    Satanás em meu próprio chamado ao ministério. Sucedeu durante os primeiros
    dias do ministério do "Desafio Jovem" em Nova Iorque. Nosso trabalho com
    viciados em drogas e álcool mantinha-me muito ocupado, e eu tinha que viajar
    freqüentemente para levantar fundos para manter o ministério.
    Nesta época a irmã Kathryn Kuhlman me pediu para pregar em uma cruzada em
    Los Angeles. Antes de sair para a costa oeste tive uma terrível discussão
    com minha esposa, Gwen. Eu a deixei chorando enquanto dirigia até o
    aeroporto.
    No vôo para Los Angeles senti uma inquietação. Havia dito algumas coisas
    dolorosas a Gwen. E ainda por cima, sempre odiei voar. Assim que cheguei à
    Califórnia, eu estava fatigado, acabado e me sentindo culpado.
    Nesta noite, quando me levantei para pregar para quatro mil pessoas, a voz
    de Satanás literalmente gritou na minha cabeça: "Você é o maior falso deste
    país! Como pode estar aqui comportando-se como um santo? Como pode pregar à
    esta multidão, quando você se irritou com sua esposa e a deixou chorando?
    Você não é um vitorioso - você é um acomodado."
    Congelei no púlpito. A voz acusadora era tão forte na minha cabeça que não
    podia afugentá-la. Era a única coisa que conseguia ouvir. Orei
    silenciosamente: "Deus, me ajude. O que está acontecendo?"
    Finalmente, fechei minha Bíblia - e me retirei do púlpito. Quando me dirigi
    aos bastidores, a voz continuava com suas mentiras. "Você é indigno de
    falar! Você não tem o direito de pregar o evangelho até que coloque sua vida
    em ordem."
    A irmã Kuhlman me perguntou: "David, o que aconteceu?" Respondi: "Me perdoe
    - eu não posso pregar. Sou um falso! Não sei se serei digno de pregar outra
    vez."
    No avião voltando para Nova Iorque me sentia ainda mais abatido e indigno.
    Só conseguia pensar nas áreas da minha vida com as quais eu ainda lutava,
    como o meu temperamento, a minha cobiça. Sabia que o Senhor havia tratado
    comigo a respeito destas coisas - mas parecia que eu jamais alcançaria
    vitória sobre elas. Pensei que nunca seria capaz. Antes do vôo terminar eu
    acreditava que era totalmente indigno do ministério.
    Satanás havia triunfado em me fazer sentir sem valor aos olhos de Deus. Eu
    acreditara em suas acusações - as mentiras vieram diretamente do fundo do
    inferno. Mas graças a Deus - depois que fui para casa, fiz as pazes com
    Gwen, e passei um tempo em oração, o Senhor começou a falar suavemente à
    minha alma, assegurando-me do Seu amor por mim.
    Assim que voltei a ministrar nas ruas, Deus restaurou minha confiança em Sua
    misericórdia e amor. Comecei a confiar no poder purificador do sangue de
    Jesus - e reconheci todas as mentiras e acusações do diabo contra mim. Cada
    vez que chegavam a mim, eu as punha de lado!
    E então - você tem escutado as mentiras de Satanás acerca do seu caminhar
    com Jesus? Você tem achado que é indigno - que não pode adorar a Deus até
    que esteja tudo perfeito? Tenho boas notícias para você: você já sabe que
    Satanás é um mentiroso - mas posso provar que Jesus fez você digno! Ele o
    tornou limpo - apto para apresentar-se perante Ele e servi-Lo com
    fidelidade.
    Você se perguntará: como me tornei digno? Você se tornou digno pelo
    sacrifício de Cristo na cruz! E isto lhe dá o direito de adorar e servir ao
    Senhor.
    "a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado,
    frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus;
    sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda
    a sua perseverança e longanimidade; com alegria, dando graças ao Pai, que
    vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz. Ele nos
    libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do
    seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados." (Colos. 1:
    10-14).
    Em grego esta passagem quer dizer: "O Pai nos fez justos, dignos,
    qualificados em caráter - suficientemente bons para sermos participantes na
    herança dos santos na luz."
    O que Jesus fez na cruz o qualifica para a herança eterna! E se Deus o
    qualificou para vida eterna, então também o ajustou em caráter. Você pode
    "afastar-se" um mês do ministério, um ano, uma vida inteira - tentando se
    ajustar para Ele, tentando trabalhar em seu caráter, para chegar a ser
    suficientemente bom para ser usado por Deus. Mas você nunca poderá
    capacitar-se por si mesmo!
    Ainda que você fosse capaz de obter vitórias sobre cada coisa errada que
    tenha feito, sobre cada mal pensamento que tenha tido, não estaria todavia
    qualificado diante de Deus. É impossível. Por que? Porque Deus não aceita a
    justiça de ninguém - a menos que seja aquela de Seu próprio Filho, Jesus
    Cristo!
    Não se pode obter a justiça de Cristo trabalhando para isto. A única maneira
    de obtê-la é crendo e confiando em Deus. Vem a você pela fé. Veja, a fé não
    somente lhe salva - como também lhe santifica, lhe justifica, lhe cura, lhe
    guarda. Tudo acontece pela fé no que Jesus fez!

 

 

    Você Pode Se Apresentar Diante de Todo o Céu e de
    Toda a Terra na Certeza Absoluta da Fé !

 

 

    Você pode agora dizer: "Ainda não alcancei - minha carne resiste ainda ao
    Espírito; mas sou redimido pelo Sangue do meu Salvador. Cantarei e gritarei
    louvores ao meu Deus!"
    Isto soa parecido com o jeito que você ora toda manhã? Provavelmente não. É
    muito provável que comece seu dia buscando formas de como seguir adiante,
    esforçando-se. Engolirá algo insatisfatório, com resignação, prometendo a
    Deus que nunca voltará aos velhos caminhos outra vez.
    Quando ocasionalmente obtém vitória, você sente-se bem. E diz: "Consegui!
    Sabia que se colocasse minha mente e meu coração nesta questão eu obteria
    vitória." Temos a tendência de nos sentir tão orgulhosos acerca dos nossos
    êxitos, que andamos por aí julgando os outros que não são vitoriosos.
    Com os anos aprendi que alguns dos cristãos mais ímpios e críticos, são
    cristãos que obtiveram vitórias proclamadas por eles mesmo, vitórias que na
    verdade eram apenas parciais. Estas pessoas pensavam que haviam vencido -
    mas a verdade é que somente suprimiram seus hábitos de pecados. Esses
    hábitos foram enterrados muito no fundo - para logo saírem com mais força
    ainda.
    Quando eu era mais jovem e necessitava de vitória sobre algo, convencia a
    mim mesmo: "Farei isto mesmo que tenha de morrer" -- e quase morria! Passava
    um mês, e eu pensava: "Os pensamentos de cobiça se foram. Estou livre!" Mas
    sempre ficava provado que se tratava de uma vitória apenas parcial.
    Aí era quando o desânimo chegava. Eu chorava: "Oh Deus, tenho rogado que me
    libertes, mas não o tens feito. Estas coisas permanecem em mim!" E culpava a
    Deus.
    O fato era que eu estava tão ocupado esforçando-me na carne para ser justo,
    que perdia minha compreensão da verdadeira justificação. E a verdade é que a
    única justificação que o Pai aceita é a de Seu Filho, Jesus Cristo! Somente
    um homem se apresenta justo diante de Deus - é Jesus. E quando estamos
    diante do Pai, Ele nos aceita somente por Cristo - por Sua justificação e
    vitória.
    Então, o que devo fazer, perguntará você? Primeiro, não escute as mentiras
    do diabo. E segundo, erga-se sobre os seus pés espirituais - e comece a
    louvar o Senhor! Diga: "Pela fé no sangue de Jesus, eu recebo a justificação
    de Cristo. Ele me fez justo, qualificado, para louvar e servir o meu
    Senhor!"
    "...no qual temos a redenção, a remissão dos pecados" (verso 14). Redenção
    significa simplesmente "ser livre". Fomos postos em liberdade pelo precioso
    sangue de Jesus. E temos o direito de nos levantarmos contra toda acusação e
    dizer: "eu não creio nisto, diabo! É a última vez que você me acusa. Minha
    Bíblia diz que sou redimido porque creio no que Jesus fez por mim na cruz.
    Eu confesso os meus pecados a Ele, e sou redimido - comprado, livre!"
    Então Satanás vem até você e sussurra: "O que você diz a respeito daquele
    pecado que até ontem você consentia? Você é culpado!"
    Você pode contestar: "Não - já pedi perdão por isto. E pedi a Deus para que
    me colocasse ódio por aquele pecado, para impedir de fazê-lo novamente. Está
    tudo debaixo do sangue!" "Mas você ainda é tentado!"
    "Verdade. Mas meu Jesus proveu livramento para mim. Sua palavra diz que
    serei capaz de suportar a tentação. Ele me livrará porque prometeu fazê-lo."

 

    "Mas Deus ainda tem coisas contra você! Há coisas na sua vida que não foram
    ainda colocadas em ordem."
    Quando o acusador trouxer à sua memória "coisas que não foram colocadas em
    ordem" - algum conflito que ainda brama dentro de você - você pode responder
    com esta passagem:
    "E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no
    entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no
    corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele
    santos, inculpáveis e irrepreensíveis..." (versículos 21 - 22).
    Você pode dizer: "mesmo quando eu tinha a mente alienada por terríveis obras
    malignas - mesmo quando estava na cova da luxúria...mesmo quando eu era um
    dos piores inimigos de Deus, a Bíblia diz que Ele me amava. Ele me procurava
    e me reconciliou conSigo. Agora, me tirou das trevas para o Seu reino de
    luz. Fez com que eu ficasse em paz com Ele. Então, quanto mais Ele me ama
    agora que estou reconciliado, mesmo que ainda lutando? Ele me ama!"
    Há uma coisa que constantemente rouba nosso gozo e paz com Deus: é nosso
    esforço interminável de O agradar em nossa carne! Tentamos sempre agradá-lO
    com nosso poder humano - mas nunca será suficiente. Toda vitória será curta,
    e da próxima vez que formos tentados cairemos ainda mais fundo.
    A Bíblia chama nossos esforços "tentar estabelecer a nossa própria justiça":

 

    "Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua
    própria, não se sujeitaram à que vem de Deus" (Romanos 10:3). É a nossa
    carne em ação!

 

 

    Deixe-me Expor Três Mentiras do Diabo !

 

 

    Deus quer que você seja capaz de sobrepassar toda mentira do diabo - ser
    colocado em liberdade do fosso em que o colocou. Aqui estão três das
    armadilhas de Satanás as quais você deve vigiar.
    * Satanás continua trazendo o assunto de seus pecados para que seus olhos
    não se fixem em nosso Salvador.
    O diabo quer que você esteja tão concentrado em sua doença, que se esqueça
    do poder do médico. Ele quer que você se esqueça que Deus é seu libertador -
    que Ele está ao seu lado para salvá-lo, não para destrui-lo!
    Aqui está como você deve responder esta mentira: "Não, diabo; não estou
    livre da presença do pecado. Ele sempre estará presente na minha carne. Mas
    estou livre do poder prejudicial do pecado!" Satanás pode molestá-lo,
    tentá-lo, acusá-lo - mas não pode destrui-lo. Pode jogar toda espécie de
    acusações contra você - mas não pode tocar sua alma!
    A lei não pode lhe condenar, porque Cristo cumpriu a lei. A justiça divina
    não pode condená-lo, porque Cristo santificou toda a justiça de Deus. Nenhum
    pecado pode condená-lo, porque todo pecado está sob o Seu sangue. E a
    consciência não pode condená-lo, porque Cristo é maior que a consciência.
    Então você foi perdoado completamente - não restando nada que o condene!
    * Você pode pensar: "Fui vencido pela lascívia - fui derrubado contra a
    minha vontade. Ela simplesmente veio sobre mim, e eu caí outra vez!"
    Você foi tomado pelo pecado que você pediu a Deus para lhe libertar. Agora
    permita-me perguntar: "Você clamou contra o seu pecado?"
    A lei do Antigo Testamento registra que qualquer mulher que era "agarrada no
    campo" e violentada por um homem seria considerada inocente se ela gritasse
    por ajuda (ver Deuteronômio 22: 23-27). Mas se ela não gritasse - isto é, se
    não se opusesse e nem resistisse - ela seria apedrejada.
    Este é exemplo daquilo que o inimigo faz conosco: ele vem contra nós ao
    trabalharmos nos campos do Senhor, e se apodera de nós com a tentação. Mas,
    neste momento, devemos clamar ao Senhor por ajuda. A próxima vez que você
    estiver em tal lugar, faça do seu clamor uma oração: "Senhor, eu odeio isto.
    Eu não quero. Ajude-me!" Seu grito o manterá inocente!
    O diabo continua o condenando porque você foi derrotado, porque se
    aproveitou de você? Você deve levantar-se em espírito e gritar: "Senhor, Tu
    conheces o meu coração. Odeio este pecado. Não é algo que eu queira. Clamo a
    Ti neste instante, e seguirei clamando-Te!"
    * Devemos nos arrepender do nosso desânimo por nossos pecados.
    Quando chegamos a ficar desanimados, é prova de duas coisas: de nossa
    ignorância quanto à misericórdia e à graça de Deus, e da incredulidade de
    Seu amor para conosco. Ambas são pecado!
    Se está desanimado por seu pecado, significa que durante o período de
    fracasso você não confia no amor de Deus por você. Que está vivendo em
    voluntária ignorância da aceitação plena de seu Pai por você! Você deve
    arrepender-se!
    Se apenas você compreendesse quão grande é a misericórdia que seu Pai tem
    por você, saberia que Ele o ama ainda quando você falha. Então poderia
    dizer: "Ó Deus, perdoa-me! Tenho estado tão desanimado por causa do meu
    pecado. Não tenho crido em Tua misericórdia e perdão!"
    Não, eu não sou digno de escrever esta mensagem. E você não é digno de
    levantar as suas mãos em adoração a Deus. Ninguém é digno - não com nosso
    próprio poder ou força humana. Mas Jesus nos diz: "Eu te fiz digno." E agora
    podemos nos apresentar e dizer em Seu nome: "Sou digno - pelo sangue do
    Cordeiro!"
    ---

A Chave Para Se Vencer o Pecado

(The key to power over sin.)

por David Wilkerson, pastor of Times Square Church, New York City

 

Por David Wilkerson

   

    Eu achava que o caminho para se conseguir a vitória sobre o pecado fosse
    estudar a sua origem. Em outras palavras, de onde foi que ele surgiu? Como é
    que fui infectado por ele? Porém, que estudo longo e complexo é este. É uma
    história um tanto complicada a respeito de um tipo de guerra estelar que
    teve lugar antes mesmo de eu ter nascido, quando o anjo líder, Lúcifer,
    liderou um exército da terça da parte dos anjos de Deus em uma insurreição.
    Bem, a origem do pecado também tem a ver com o fato de que o homem nasceu
    com livre arbítrio, incluindo uma alternativa para cometer o mal. E tem a
    ver com Satanás trazendo esta alternativa à atenção de Eva, a primeira dama
    da criação. Tem a ver com os dois, Adão e Eva, tendo os seus olhos abertos
    para a batalha interior que eles mesmos haviam introduzido em seus corpos e
    mentes. Como o pecado foi transferido de Adão para todo o resto da raça
    humana, é outro daqueles problemas teológicos que ainda continua sendo
    discutido.
    Eu decidi ir contra a tentativa de se localizar a origem do pecado de Adão.
    Pois estou mais preocupado com o minha própria batalha interior. Uma pessoa
    aflita com câncer não está preocupada em se aprofundar num estudo a respeito
    de como o câncer surgiu. Ela simplesmente quer a cura para a sua
    enfermidade. É verdade, os médicos devem entender a causa da doença para
    encontrar a cura. Mas o corpo aflito está mais preocupado em receber socorro
    imediato.
    Eu simplesmente pedi ao Espírito Santo que mostrasse como eu poderia lidar,
    honestamente, com o mal que está, neste exato momento, presente dentro de
    mim. Para mim não importava mais saber de onde ele veio, como se originou,
    ou como penetrou em em minha mente – tudo que sei é que ele está lá, que eu
    não o quero me dominando, e que preciso de ajuda para vencê-lo. Pedi a Deus
    que me mostrasse a resposta em termos simples que pudesse entender. Com uma
    fé simples, como a de uma criança, me deparei com verdades que abriram a
    minha mente para uma nova vida de liberdade quanto ao domínio do pecado.
    Elas são a chave da minha vitória sobre o engano do pecado.
    Qual a descoberta que Paulo fez que poderia levá-lo a regozijar-se e dizer,
    " Portanto, agora, nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo
    Jesus." (Romanos 8:1)? O que fê-lo parar de dizer, "Eu quero, mas não
    consigo"?
    Ele fala a respeito de um novo princípio de vida. Este novo princípio de
    vida em Jesus, na verdade, parou o carrossel do pecado, arrancou-o de seu
    trajeto interminável, e livrou-o de uma vez por todas de seu poder.
    Aqui está, exposto de forma simples, como que este novo princípio de vida
    funciona, de acordo com Paulo.

 

 

    I. Os Cristãos Não São Mais Escravos do Pecado

 

 

    Nós não temos mais nenhuma obrigação para com a nossa natureza sensual 
    (Romanos 8:12).
    Diz-se que Abraão Lincoln “libertou os escravos" com a Proclamação da
    Emancipação. Este documento legal declarou morte à escravidão. Todos os
    escravos foram libertados.
    Quando esta notícia se espalhou pelas plantações do sul do país, muitos dos
    escravos não acreditaram nisso. Eles continuaram servindo seus senhores como
    escravos, convencidos de que sua promessa de liberdade era uma farsa.
    Inúmeros proprietários de terras inescrupulosos disseram aos seus escravos
    que isto era um rumor falso e os mantiveram sob escravidão. Mas, pouco a
    pouco, a verdade veio a iluminá-los quando perceberam antigos escravos
    perambulando por aí, felizes por sua mais recente descoberta, a liberdade.
    Um a um, foram lançando fora as suas cargas, dando as costas para a
    escravidão, e partindo para uma nova vida.
    Talvez, você ainda não tenha ouvido, ou até mesmo soe bom demais para ser
    verdade, mas Cristo já emancipou todos os escravos do pecado no Calvário.
    Você agora pode abandonar qualquer vínculo com o diabo! Pode lançar fora a
    sua carga de pecado, sair fora do domínio de Satanás, e entrar em uma nova
    vida de liberdade.
    Deixe-me mostrar o que a Bíblia quer dizer, quando fala a respeito de morrer
    para o pecado. Quando Lincoln emancipou os escravos, o “assunto” escravidão
    morreu. Não o senhor do escravo – nem o próprio escravo. O escravo podia
    sair livre, dizendo para si mesmo: a escravidão é um assunto morto.
    Ele agora, podia voltar para os campos e até mesmo pegar mais algumas
    carreiras de algodão – talvez por medo ou instinto – mas aquilo, de forma
    alguma, fazia dele um escravo novamente. Ele estava livre, porém, tinha que
    exercitar sua liberdade. A Proclamação não podia forçá-lo a se submeter a
    ela, e nem o seu senhor podia forçá-lo a retornar à vida escrava. Era uma
    questão de vontade do escravo.
    A Bíblia diz, "...aquele que está morto está justificado do pecado. Ora se
    já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos" (Romanos
    6:7-8).
    Isto simplesmente quer dizer: já que a sua escravidão se tornou um assunto
    encerrado, vendo que Cristo já o declarou emancipado, você agora está livre
    para viver como uma nova pessoa em Cristo, pensando de si mesmo como alguém
    desacorrentado.
    Cristo não pode levá-lo a fazer o certo, e nem Satanás pode levá-o a fazer o
    errado. Cristo declara que estamos livres pela fé, porém precisamos agir
    como pessoas livres.
    Quando alguém recebe a Jesus como Senhor, o que é que morre nele? O pecado
    não morre. Satanás não morre. Nem o mal morre. O "assunto" ou a
    "controvérsia" é que morre. O pecado criou uma controvérsia dentro do
    coração do homem a respeito de quem estava no controle, e daí resultou a
    batalha entre o bem e o mal. Deus simplesmente emancipou a mente do controle
    do pecado, matando a controvérsia da escravidão.
    Quando a Bíblia diz que “morremos para o pecado," simplesmente significa que
    para nós o assunto está morto! Não há mais o que discutir – a questão não é
    negociável – o homem está livre! O assunto sobre quem é o responsável está
    morto! Paulo usou termos legais para descrever a liberdade do cristão quanto
    à escravidão do pecado. E os mesmos termos legais são usados hoje no
    Congresso: o projeto de lei morreu. A emenda foi morta. A proposta morreu.
    Há tempos atrás, na corte do inferno, Satanás decretou a lei de que, como
    príncipe do mundo, todas as almas viventes eram seus subordinados. A corte
    suprema de Deus matou esta lei do pecado. E morreu, porque Satanás não podia
    impô-la mais. Deus declarou-a inconstitucional e substituiu-a pela Sua
    própria lei – a lei do Espírito, dando-Lhe todos os direitos ao conjunto dos
    crentes.
    Agora nenhum cristão pode dizer: "Não consigo evitar. Não consigo me
    libertar do pecado." Paulo estava finalmente liberto deste tipo de conversa,
    e assim também nós devemos estar! Agora Satanás não pode lhe fazer pecar;
    trata-se de sua própria concupiscência querendo brotar novamente. Se Cristo
    não quebrou o poder do pecado, a crucificação foi uma farsa.
    Você sempre será um escravo até que desista de ficar desculpando a sua
    fraqueza, alegando-se incapaz. Você não é incapaz como filho de Deus. Não é
    mais o brinquedinho do diabo; então, mãos a obra e discipline o seu
    desenfreado e teimoso desejo. O cristão que diz "Não consigo" está na
    verdade dizendo "Não conseguirei". Fingir ainda ser um escravo é um álibi
    que os cristãos usam para se livrarem do fato de terem que encarar a
    responsabilidade de sua libertação.
      "Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez, estardes
      em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual
      clamamos: Aba, pai" (Romanos 8:15).
      "Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de
      escravidão "(Gal.5:1).

 

 

     II. A Libertação da Escravidão do Pecado Deve Ser Aceita Pela Fé.

 

 

    “Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim
    de que seja firme a promessa...” (Romanos 4:16).
    Fé é algo que você executa em cima daquilo que crê. Sabedoria não
    significará nada, a menos que você aja em cima disto.
    Os filhos de Israel receberam a boa palavra de que Deus havia entregado a
    eles a terra de Canaã por herança. Esta informação não teria significado
    nada para eles se tivessem permanecido como escravos no Egito. Mas, a Bíblia
    diz, "Pela fé....deixou o Egito...pela fé passaram o Mar Vermelho, como por
    terra seca” (Hebreus 11:27-31).
    Os Israelitas não marcharam para as fronteiras de Canaã, disparando um
    arsenal de flechas, e esperando que os exércitos inimigos caíssem mortos,
    todos de uma só vez. A terra, de fato, lhes pertencia, mas tinham que
    possuí-la "destruindo um soldado de cada vez."
    O que é que isso tem a ver com o fato de eu alcançar vitória sobre as garras
    do pecado? Tudo! Cristo liquidou com o assunto da escravidão ao pecado
    declarando que você está emancipado de seu domínio, porém, você precisa crer
    nisso de tal forma, que venha a tomar alguma atitude a esse respeito.
    Não é o suficiente dizer, "Sim, eu creio que Cristo perdoa os pecados; que
    Ele é Senhor; que Ele pode quebrar o poder do pecado em minha vida.” Você
    está mentalmente consentindo com aquilo que ouviu. Mas fé é dar um passo em
    direção à esta promessa de libertação, e agir em cima dela.
    Mas como? Quebrando os vínculos com amizades antigas que o arrastam para
    baixo. Convencendo-se a si mesmo de que, na realidade, a liberdade é sua.
    Reivindique-a! Deus falou, então aja em cima do que Ele disse. Livre-se de
    sua passividade e entre na nova vida de paz e liberdade com determinação
    convicta.
    Sua batalha pode e deve finalmente acabar. A Bíblia é bastante clara a esse
    respeito: os cristãos esperam entrar em um repouso.
    “Portanto resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que
    entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras (abandonou a
    batalha) ...procuremos pois entrar naquele repouso, para que ninguém caia no
    mesmo exemplo de desobediência.” (Hebreus 4: 8-11).

 

 

    Fé em Ação Gera Confiança

 

 

    Os crentes vencem o poder maligno deste mundo através da fé. Verdadeira fé é
    a única alternativa que pode lhe ajudar à resistir com confiança os poderes
    da tentação. Domínio próprio só é possível quando, pela fé, a verdade de já
    estar emancipado é aceita.
    Amar a Deus significa obedecer os Seus mandamentos, e estes mandamentos não
    são penosos. Na verdade, esta fé que devemos ter é o único caminho pelo qual
    o mundo pode ser conquistado (I João 5: 3, 4).
    “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor,
    bramando como leão, buscando a quem possa tragar. Ao qual resisti firmes na
    fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no
    mundo.” (I Pedro 5: 8 – 11)

 

 

    Mantenha-se Firme!

 

 

    A coisa mais importante que eu posso dizer para um cristão que ainda está
    batalhando contra um pecado secreto é: mantenha-se firme! Ninguém jamais
    afogou-se enquanto nadava em direção a Cristo. Nem foi deixado sangrando
    para trás a beira do caminho, estando ferido numa batalha para ser livre.
    Quando você cai, ou encara face a face um vício que não sai, Deus marca uma
    linha exatamente aonde você está. Ele diz: "Levante-se; confesse; e continue
    andando em frente. Não volte para trás da linha. Não volte para a
    escravidão. Continue em Minha direção. Você foi emancipado, então não
    desfaleça, mantenha-se firme pela fé, em direção à sua liberdade.”
    O passo mais importante que você dá, como um cristão, é aquele que dá logo
    após ter caído. Satanás lhe sussurra ao ouvido, "Você está estragado até o
    caroço, é sensual, infantil, imaturo. Nunca será uma pessoa santa; nunca
    será alguma coisa em Deus. Então desista! Entregue-se! É inútil tentar.
    Volte! Deus é muito elevado e muito santo; é muito complicado e difícil;
    você nunca vai conseguir. Está tudo acabado!"
    Mentiras – todas elas, mentiras! Então você pecou? Julgou que tinha
    liberdade e a perdeu? Pensa que as pessoas vão lhe chamar de fingido? Pecou
    descaradamente – e ainda sabendo – que o Espírito Santo estava gritando em
    seus ouvidos? E então, pensou que nunca mais tornaria a fazer algo tão vil
    novamente? E aí? Há agora um divino arrependimento em seu coração? Está
    determinado a se levantar e agir como uma pessoa emancipada? Está humilhado,
    envergonhado e arrependido? Está pronto para continuar em frente? Aceite o
    perdão de Deus e prossiga! Você ainda é Seu filho. Você não é escravo do
    pecado. O bondade amorosa dEle é maior do que todos os seus pecados. Aceite
    Seu amor e perdão, e recobre o ânimo.
    Pare com a sua introspecção sem fim. Você não irá encontrar a vitória
    investigando toda a sujeira da sua natureza má. Seria como uma derrota
    total, avançar para o campo do inimigo afim de consultar o adversário,
    perguntando, " Por favor, você pode me dizer o que é que estou fazendo de
    errado? Quero lhe derrotar, mas tenho a impressão de que não estou
    progredindo em nada. O que estou fazendo de errado?”
    A direção certa não vem através de se entender a errada. Isto só vem através
    de entender as abundantes misericórdias de Deus em Cristo Jesus. Então, pare
    de ficar olhando para dentro de si mesmo; e olhe para cima, para aquEle que
    o ama em todo o tempo. Pare de tentar se entender, e alegre-se em Seu amor
    restaurador e curativo.
    “Porque Deus é quem opera em vós tanto o querer quanto o efetuar, segundo a
    sua boa vontade” (Filipenses 2:13).

 

 

    III. Os Cristãos São Socorridos Sobrenaturalmente
    Em Suas Horas de Tentação.

 

 

    “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que vos não
    deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o
    escape, para que a possais suportar” (I Coríntios 10:13).
    Esta é a mais poderosa e encorajadora promessa de todas as que estão na
    Bíblia para os cristãos que enfrentam tentações. Deus mostra, de forma bem
    clara que nenhum de Seus filhos é deixado sozinho na batalha contra a
    cobiça, a paixão, ou qualquer tipo de mal habitual. O socorro sobrenatural
    necessário é fornecido.
    Cristãos de todas as partes do mundo estão se tornando fracos contra as
    tentações, e se rendendo à carne em número crescente. É como se alguns
    cristãos pensassem que a tentação é um tipo de doença incurável que não
    larga enquanto não destrói a vítima. Se curvam de medo quando a tentação
    chega, pensando: "Ó não – aqui vou eu de novo. Me pegou em suas garras, e só
    sei que vou me entregar. Não tenho força de vontade; sou muito fraco para
    resistir."
    Este é o pensamento de derrota dos cristãos que não sabem reivindicar seus
    direitos de auxílio. O que é este direito prometido para todos os cristãos?
    É o direito ao auxílio sobrenatural durante as tentações.
    Estaria eu dizendo através disto que Cristo não só liberta o cristão do
    poder do pecado, como também o ajuda guardando-o de voltar a praticá-lo?
    Isto é exatamente o que a Bíblia diz.
    Quando a tentação chega em sua vida como uma enchente, Cristo exercita o Seu
    senhorio e faz algo sobrenatural para combatê-la. Ele "cria um caminho de
    escape," de modo que estes crentes possam sobreviver a prova ou, em outras
    palavras, "suportá-la."
    A tentação é um teste do livre arbítrio do homem; logo, Deus não pode
    eliminar essa Sua alternativa para se pecar, sem destruir este mesmo livre
    arbítrio. Então Deus faz algo assim eficaz para aqueles que nEle confiam.
    Faz algo em relação ao objeto de cobiça. Ele age externamente a nós,
    exatamente na fonte da tentação.
    Isto é melhor ilustrado por uma mãe que age em relação à tentação que seus
    filhos têm de roubar bolachas do pote. Ela não pode remover de repente a
    tentação deles – então ela simplesmente pega o pote, e o coloca longe de seu
    alcance.
    Além disso, pode ser ilustrado por um pai que muda a sua família de um
    bairro infestado com tráfico de drogas, para evitar que seus filhos sejam
    seduzidos por usuários e vendedores de narcóticos.
    Muitos pais têm se mudado para um novo continente afim de manter um filho ou
    uma filha longe de amigos maus e influências corruptoras.
    Todos estes pais agiram em amor, esperando que a sua temporária intervenção
    viesse a permitir algum tempo para que seus filhos aprendessem a obedecer do
    fundo do coração. Embora deva chegar o tempo em que os filhos decidam seus
    negócios por si mesmos, um pai amoroso não pode ficar parado, permitindo que
    uma criança imatura possa ser dominada por alguma influência maligna. Um pai
    preocupado irá levar o seu filho para longe da tentação, ou de alguma forma
    colocá-la fora de seu alcance.
    A Bíblia ilustra como Deus pode colocar objetos de tentação fora do alcance
    de Seus filhos. Por exemplo: os filhos de Israel começaram a murmurar contra
    Moisés por tê-los levado para fora do Egito. Eles queria retornar ao seu
    velho estilo de vida. A liberdade parecia ser muito cara. Então Deus
    planejou abrir o Mar Vermelho, permitiu que o exército egípcio perseguisse o
    seu povo em terra seca, e então fechou o mar – bloqueando qualquer chance de
    retorno. Deus fez aquilo apenas em resposta às ferventes orações de Moisés e
    outros israelitas que desejavam a liberdade.
    Assim como Jesus, os cristãos devem resistir as tentações com a palavra de
    Deus. A maioria das tentações podem ser neutralizadas simplesmente
    concentrando o raio da verdade sobre elas. Porém existem outras tentações
    que estão tão enraizadas, são tão furiosas e tenazes – que não podem ser
    resistidas sem que haja uma intervenção sobrenatural. As tentações mais
    graves são geralmente o resultado de um ataque direto e pessoal de poderes
    demoníacos.
    Paulo fala de "por fora combates, temores por dentro" (2 Cor. 7:5) .
    Satanás, na verdade, declara guerra a certos convertidos que abandonaram seu
    exército, por terem sido uma vez os melhores exemplos de seus poderes de
    possessão. Em seu acesso de raiva por haver perdido alguém tão especial, ele
    luta contra eles pelo lado de fora esmurrando-os repetidamente com uma
    tentação dura após a outra, peneirando-os como o trigo. Jesus disse a Pedro,
    "eis que Satanás vos pediu para peneirar como trigo"( Lucas 22:31). "
    Você é um cristão que tem sido esmurrado por uma tentação repetitiva que
    parece estar além de sua forças resistir? Homossexuais,
    alcoólatras,viciados, amantes secretos ilícitos, são particularmente
    assolados por tentações esmagadoras. Freqüentemente, se rendem, e logo são
    engolido pelo remorso, pela culpa, e sentimentos de impotência. Como
    cristãos, não duvidam que Cristo os tenha libertado de todos os compromissos
    de obediência às suas cobiças carnais. E, em muitas áreas de suas vidas, têm
    visto progressos e vitórias. Ainda assim, permanece um insistente pecado –
    uma tentação sufocante para se entregar à certa luxúria.
    Graças a Deus, há um caminho de escape! Deus é um "interventor miraculoso."
    Foi preciso uma tempestade, uma baleia e várias intervenções sobrenaturais
    para tirar Jonas dos problemas. Deus tem sido conhecido por ter tornado as
    águas "amargas" e levado o maná a "cheirar mal", com o intuito de tornar a
    obediência menos difícil.
    Deus, em resposta a uma fervente oração, pode fazer com que a fonte da sua
    cobiça se transforme em um abominável fedor para você, e pode fazer com que
    a entrega ao pecado se torne tão amarga, que você hesitará em se entregar
    novamente. Ele pode lhe desviar das tentações; remover pessoas de sua vida;
    pode fazer com que a fonte de sua cobiça se vire contra você; pode jogar
    todos os tipos de bloqueios necessários; pode até colocar uma "parede de
    concreto" como proteção; Ele pode simplesmente levá-lo, sem que você nem ao
    menos resista, para dentro do local secreto de oração; ou então enviar
    alguém, para avisá-lo e corrigi-lo – mas por um jeito sobrenatural ou outro,
    Deus irá responder a oração e intervir na situação, tornando possível para
    os cristãos obterem a vitória sobre suas mais violentas tentações.
    Cristãos que, bem lá no fundo, não querem desistir de suas cobiças e que
    secretamente esperam continuar condescendendo com seus pecados, nunca
    poderão receber esta miraculosa intervenção quando são tentados. Deus se
    move para fazer um caminho de escape apenas quando o coração está totalmente
    compromissado com uma vida de separação e pureza.
    Se não houver este tipo de compromisso, não funcionará. Deus não é obrigado
    a intervir em uma situação quando uma pessoa não deseja realmente a
    libertação.
    Flertadores com pecados secretos são deixados para enfrentar as tentações
    com suas próprias forças. E então quando se rendem ao pecado, culpam a Deus
    por "não os terem livrado". Eles dizem: "Eu esperei por Deus, mas Ele
    simplesmente me deixou ir em frente cometer o erro."
    Porém os cristãos que honestamente querem ser libertados da escravidão do
    pecado podem estar seguros que seu Pai amoroso vê a sua batalha e irá usar
    todo o poder do céu para ajudá-los.
    Quando for fortemente tentado, peça a Deus pela sua intervenção
    sobrenatural, e peça com fé, crendo que Ele fará.
    Deus prometeu "nos livrar de todo o mal." Aqui está uma prova da ajuda de
    Deus em tempos de tentação:
    “Vós, que amais ao SENHOR, detestai o mal; ele guarda as almas dos seus
    santos, livra-os das mãos dos ímpios” (Salmo 97:10).
    “A nossa alma escapou, como um pássaro do laço dos passarinheiros; o laço
    quebrou-se, e nós escapamos” (Salmo 124:7).
    “Os meus olhos estão continuamente no SENHOR, pois ele tirará os meus pés da
    rede” (Salmo 25:15).
    “Então temerão o nome do SENHOR desde o poente, e a sua glória desde o
    nascente do sol; vindo o inimigo como uma corrente de águas, o Espírito do
    SENHOR arvorará contra ele a sua bandeira” (Isaías 59:19).
    Não preciso mais temer retrocessos ou fracassos. Ele vai me guardar, me
    amar, e me levar à glória, pelo Seu poder.
    “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos
    irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória”(Judas 24).

 

 

 

 

 

Artigos e discursos da  economista Maria da Conceição Tavares publicado em diversos órgãos da imprensa

 

 

Folha de São Paulo - 22/09/96

 

                Da falsa “via prussiana” à falsa via liberal

 

 

 Tenho 40 anos de brasileira, quase o dobro do que fui portuguesa. O que mais me espanta neste país é a capacidade das classes dominantes promoverem sucessivas “revoluções” e pactos conservadores que têm conduzido o Estado, a economia e a sociedade a um processo contínuo de desenvolvimento desigual e combinado, tanto das forças produtivas quanto das relações sociais, desde a sociedade mercantil escravista até os nossos dias.

 Os sucessivos “modelos” de desenvolvimento capitalista combinaram sempre oatraso e a modernidade, sob várias formas de inserção internacional dependente (com economia aberta ou fechada) e fizeram do capitalismo brasileiro um caso historicamente notável de dinamismo e escandalosa  desigualdade econômica e social.

 Qualquer que tenha sido o pacto político em termos de frações regionais e de classe - e apesar da dinâmica de substituição das elites dirigentes tersido muitas vezes tormentosa - a natureza do “pacto dominante” permaneceu sempre a mesma, sua base de sustentação continuou sendo a manutenção do monopólio privado da terra e do dinheiro. O controle do aparelho político do Estado, subordinado aos interesses mercantis mais imediatos ou a aspirações políticas mesquinhas contingentes, sempre operou como mecanismo de repressão dos interesses populares, com atraso recorrente nas relações de representação política e direitos de cidadania.

 Os donos do poder não se limitaram, porém, a um patrimonialismo mais ou menos visível e um autoritarismo mais ou menos abrandado. Sempre foram exímios em fazer “projetos de futuro” em que prometiam ora a “grandeza nacional” ora o paraíso na terra às populações marginalizadas cuja única saída de sobrevivência tem sido, até hoje, uma extraordinária mobilidade espacial. A participação nos frutos da acumulação e do progresso técnico fica sempre adiada para as calendas: depois da estabilização (na retórica liberal), ou depois do crescimento (na retórica desenvolvimentista), ou mesmo depois da “democratização” que segue os períodos abertamente autoritários e sempre resulta inconclusa.

 Periodicamente, algum cientista político desavisado, comparando o país com outras experiências de capitalismo tardio, invoca a “via prussiana” como paradigma de nosso autoritarismo. Ora, nem mesmo o Estado Novo, ou o período dos Generais de 1964/85 podem ser chamados de via prussiana, já que não cumpriram qualquer das tarefas das chamadas revoluções burguesas tardias. Nem a questão da terra, nem a questão da educação, nem a questão da endogeneização do progresso técnico foram resolvidas, como nas verdadeiras experiências de via prussiana (Alemanha, Japão, Coréia do Sul e Taiwan). O último representante da nossa versão do “autoritarismo prussiano” acaba de falecer em meio a sentimentos ambíguos: o pesar dos ufanistas do “BrasilPotência”, a gratidão envergonhada das poucas a quem ele salvou a vida na tentativa de extinguir os aparelhos repressivos, e a ira daqueles a quem ele mandou para a cadeia ou cassou os direitos políticos, numa longa, gradual e insegura abertura política. No seu enterro estavam todos os personagens do poder antigo e atual, salvo o Presidente da República que também faz parte do quadro de ambigüidades, só que agora emoldurando o pacto neoliberal.

 As nossas intervenções, pelo alto foram quase sempre de modernização autoritária e excludente; em muitos sentidos piores que o modelo pombalino português, que supostamente está na raiz da consolidação política e territorial da nação brasileira. Quanto aos pactos liberais, nunca respeitaram sequer as regras universais para o dinheiro, os contratos e as leis, suposto fundamental do modelo liberal. Sempre foram uma comédia de equívocos e uma verdadeira fuga para frente, interrompida regularmente por regressões políticas e sociais.

 As soluções buscadas pelos sucessivos pactos conservadores liberais implicaram sempre em traições e futricas entre os segmentos de poder federal regional ou setorial e formas de “governança” irresponsável que envolveram repetidas vezes mecanismos de endividamento insustentável,atraso tecnológico e mimetismo cultural, já que a verdadeira “antropofagia” quem a sofreu e sublimou foi o povo. brasileiro na sua luta pela sobrevivência. Só a energia e a “carnavalização” engendradas no desespero e na capacidade de adaptação de nosso povo têm permitido a esta sociedade seguir adiante, mergulhada no darwinismo social movido a símbolos de ordem, estabilidade e progresso e manipulada pelo carisma autoritário ou a “cordialidade” dos nossos dirigentes políticos “republicanos”.

 A “prudência e o equilíbrio” das elites liberais nunca implicaram em negociação verdadeira com as classes subordinadas nem incorporação dos excluídos. Com o atual pacto de poder, no entanto, estamos beirando o abuso em matéria  de fúria legislativa do executivo, desprezo pelas oposições e mão de ferro, com luvas de pelica, sobre as organizações dos “subordinados” de qualquer classe social. Os casuísmos dos paulistas no poder são a última caricatura que nos faltava ver em matéria de retorno ao “Estado Liberal”.

 Quando as elites políticas atuais usam os comunicadores paulistas, cariocas e mineiros - supostamente os menos provincianos -, para proclamar que o atual governo veio para arrancar as raízes do varguismo e do Estado desenvolvimentista autoritário e implantar uma nova ordem da sociedade civil, fico pensando se são apenas arautos cosmopolitas da “nova abertura dos portos” ou cúmplices conscientes da nossa pesada herança de escravismo e falso liberalismo.

 Senhores escribas da corte, não precisam reler os críticos portugueses, os

cariocas, os nordestinos e os gaúchos (os antigos e os contemporâneos) e

nem mesmo os velhos conservadores mineiros. Basta reler Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes, os ilustres mestres de quem todos os membros das atuais elites dirigentes paulistas  se supõem discípulos e que mesmo as elites mais provincianas e ignorantes devem ter lido, ao menos de orelhada.

 Pela manhã, para refrescar as idéias, conviria olhar os atuais humoristas de todos os quadrantes do Brasil, em particular o cronista gaúcho mais famoso no momento. Afinal os humoristas brasileiros substituem com vantagem os “cientistas sociais” de plantão, já que têm as idéias perfeitamente no lugar.

 

 

 

 

Maria da Conceição Tavares

 

Entre a Propaganda e a Realidade: lições da crise asiática

 

Discurso pronunciado em 05/02/98

 

Senhor Presidente,Senhoras e Senhores Deputados,

 

 

Ao que tudo indica, as perturbações e incertezas derivadas da crise asiática serão duradouras. A instabilidade financeira e a retração da liquidez  internacional tendem a permanecer ainda por um longo período e é provável que a economia mundial entre em uma fase de desaceleração cuja intensidade e duração são difíceis de antecipar: muito do que possa ocorrer vai depender dos desdobramentos da crise do sistema financeiro japonês e da evolução da situação na China, e dos reflexos que isto provoque sobre a economia norte-americana, que tem comandado o crescimento do mundo industrializado  nos últimos anos.

Dentro deste contexto, a situação da economia brasileira - de novo      em evidência como potencial ‘bola da vez’ na reunião do Fórum       Econômico Mundial, em Davos - é extremamente complexa e difícil. É  bom ter presente, no entanto, que os problemas que enfrentamos não podem simplesmente ser atribuidos aos impactos e desdobramentos da crise asiática; na sua essência, eles refletem as transformações endógenas resultantes do modelo de estabilização e reestruturação produtiva impulsionado pelo atual Governo, que colocou o país numa condição de forte dependência do ingresso de volumes crescentes de capital externo e da estabilidade dos mercados financeiros internacionais.

Aliás, o modelo de política econômica adotado pelo governo já foi criticado, corretamente, por diversos analistas  pelo menos de três   pontos de vista: i) a instabilidade macroeconômica associada à absorção crescente de recursos externos, a qualquer preço, de qualquer prazo e de qualquer natureza; ii) os impactos destrutivos em termos sociais e políticos sobre o  emprego e os  direitos sociais, além do desmantelamento do Estado e da Federação; e iii) a alienação de patrimônios nacionais de empresas (estatais e privadas) e a exploração predatória de recursos naturais com perda de soberania sobre parte importante do  território, sobretudo no caso  da Amazônia.

Volto ao primeiro - o da absorção externa de recursos – para insistir sobre um ponto que ainda gera confusão e que as lições da   crise da Ásia e suas repercussões no Brasil deviam ter posto de manifesto: o endividamento externo privado descontrolado. É notável que, na avaliação da dinâmica e impactos da crise, a atenção da maioria dos analistas brasileiros, acompanhando os seus congêneres anglo-saxões, tem estado centrada nos ‘fundamentos macroeconômicos’ - déficit fiscal e déficit comercial - sobre os quais o binômio juros altos e câmbio sobrevalorizado tem os efeitos reconhecidos por todos os economistas que não viraram, por dever de ofício ou por charlatanice, defensores da política econômica implantada a partir de 1994. A crise asiática  demonstrou, porém,  que não foram nem o   déficit fiscal nem a falta de competitividade nas exportações que provocaram a crise financeira e cambial. Chamar as brutais desvalorizações que assolaram os países asiáticos de ‘desvalorizações competitivas’, como se fora uma busca desenfreada de mercados exportadores, parece-me completamente descabido dada a manifesta relação entre o endividamento privado excessivo, a fuga de  capitais e as desvalorizações cumulativas do câmbio e do valor  patrimonial dos ativos financeiros, impostas pelos mercados financeiros privados globalizados.

Convém lembrar que o endividamento externo privado descontrolado já esteve no epicentro das crises cambiais e de desvalorização de ativos financeiros que levaram o Chile e a Argentina, em 1981-83, e agora os paises da Ásia, a uma crise cambial, bancária e bursátil de proporções. Ao contrário do que se imagina, se a atual crise internacional se aprofundar a situação pode ser mais grave para o Brasil do que a de 1980-82, quando a nossa dívida externa era predominantemente pública e permitia um certo controle das autoridades econômicas em coordenação com as grandes empresas

estatais.

A nossa marcha da insensatez (abertura financeira, juros altos e sobrevalorização cambial) começou no Governo Collor e agravou-se no segundo semestre de 1994, no ponto de partida do Plano Real. Tornou-se rapidamente, no atual Governo, uma dança macabra de juros altos permanentes, endividamento interno explosivo e endividamento externo crescente, basicamente de origem privada, já que o endividamento externo público se manteve praticamente constante.

Segundo o BIS (Bank of  International Settlements, com sede na       Basilea), a nossa dívida externa privada  teria atingido, em meados do ano passado, antes da crise,  US$ 110,2 bilhões, dos quais US$ 44,2 bilhões de curto prazo e  US$ 39,1 captados no mercado globalizado entre filiais e matrizes de bancos americanos  e  empresas e bancos ‘brasileiros’ e ‘residentes’ não registrados.

A julgar pelo montante de títulos da dívida  mobiliária federal que servem de ‘hedge’ cambial, não houve captação líquida de recursos externos entre julho e dezembro de 1997 por parte do setor privado, que provocou ele próprio, na crise de outubro,  uma perda de reservas de US$ 10 bilhões.

Como se explica então o  aumento da captação bruta de recursos externos de US$ 52 bilhões em julho de 1997 para US$ 129 bilhões em dezembro? Ao que tudo indica  deve-se a uma aceleração da rolagem da dívida externa privada e pública com encurtamento violento dos prazos, o que reflete o  aperto de liquidez externa gerado pela crise asiática. Não por acaso a relação entre a captação bruta de recursos externos e a captação líquida (US$ 38 bilhões em todo o ano)  alcançou, em 1997, a expressiva marca de 3,4.

O aumento da  nossa vulnerabilidade externa pode ser avaliado pela  proporção de captação de recursos externos em relação às reservas  que passou de 1,04 em dezembro de 1995 para 2,47 ao final de 1997. Ou seja, em apenas dois anos, mas sobretudo depois da crise asiática, o Brasil se aproxima rapidamente do ‘coeficiente de alavancagem’ tolerável, nas atuais circunstâncias, pelo mercado.

Provavelmente por isso  o nosso ‘prêmio de risco’ segue sendo o maior da América Latina e a taxa interna de juros continua em níveis estratosféricos, de onde dificilmente sairá no curto prazo apesar dos métodos perfunctórios utilizados pela Direção do BACEN para tranquilizar o mercado. A ‘crença’ de  que o pior já passou (só porque houve uma captação líquida de US$ 300 milhões em janeiro/98),  ou a propaganda, mesmo feita pelo Presidente da República numa entrevista em cadeia CNN, não mudam a situação de fragilidade externa do país, gerada tanto por razões endógenas quanto pelo agravamento da crise asiática,  que está longe de       encontrar solução.

Creio que não é necessário insistir no fato de que a permanência de taxas de juros extremamente elevadas tem efeitos corrosivos sobre a economia: seu impacto sobre a situação financeira das empresas e as dívidas da classe média e dos mais pobres tendem a elevar fortemente a inadimplência; o crescimento do endividamento externo  dos bancos põe em risco o sistema financeiro público e privado; o aumento dos custos de recomposição das reservas e de rolagem da crescente dívida pública agrava dramaticamente os desequilíbrios fiscais, cujo ônus do ajuste recai sobre os setores assalariados e de menores rendas; seus custos diretos e indiretos sobre o consumo e o investimento são desorganizadores da atividade econômica e  tendem a exacerbar os problemas de desemprego e precarização do trabalho.

Dada a armadilha juros-câmbio (variáveis decisivas que só  podem mover-se lentamente), podemos afirmar que os desequilíbrios financeiros interno e externo da economia brasileira já ganharam autopropulsão vis a vis aos resultados primários de natureza  fiscal e comercial. Tanto o déficit fiscal (que já atingiu 5% do PIB em termos nominais) quanto o déficit das transações correntes (que já ultrapassou 4% do PIB), estão sendo basicamente  financiados com emissão de dívida interna e externa de curto prazo. Do ponto de vista da rolagem da dívida interna,  os valores praticamente dobraram e em fevereiro prevê-se uma rolagem de 30 bilhões de reais em títulos de curto prazo.

No que se refere às previsões de balança comercial, as expectativas realistas tampouco são favoráveis.   As exportações não tem condições de melhorar  com a desaceleração da economia mundial acompanhada de deflação de preços internacionais. Sua expansão no ano passado esteve ligada à elevação do preço das ‘commodities’(que contribuiu para um crescimento de 21,6% dos produtos básicos) e ao significativo aumento das vendas de manufaturados, principalmente aviões e automóveis, que representaram 53% do incremento total das exportações; estes vetores tendem a perder vigência no curto e médio prazos com o que, ainda com as  medidas anunciadas pelo Governo  de estímulo às exportações - colateralmente apoiadas pela recessão interna que tende a expandir as vendas ao exterior - é pouco provável que aumente significativamente o valor das exportações (dada a deflação de preços) embora possa crescer o ‘quantum’ exportado, puxado principalmente pelos produtos básicos e semimanufaturados. Nestas circunstâncias, mesmo que as importações caíssem bastante, a hipotética redução do déficit comercial seria irrelevante frente ao déficit na conta de serviços (juros, lucros, viagens, etc.) que em 1997 apresentou um saldo líquido negativo de US$ 27,5 bilhões, sem perspectivas de redução global, dado que a própria lógica do modelo de financiamento externo da economia tende a retroalimentar seu crescimento através, principalmente, da expansão das despesas com juros e da remessa de lucros para o exterior.

Note-se adicionalmente que os movimentos de desaceleração econômica mundial e de queda dos preços dos bens transacionáveis redimensionam o tema da ‘desvalorização competitiva’ do real. Ou seja, a desvalorização, em tanto não compense os efeitos depressivos  de ambos movimentos, não torna mais competitivas as exportações e portanto não expande seu valor, servindo apenas para aumentar as rendas em reais dos exportadores. O mesmo raciocínio se aplica às políticas de ‘competitividade espúria’ promovidas pelo Governo Fernando Henrique Cardoso, através do rebaixamento dos salários, dos custos não-salariais da mão-de-obra e da supressão das medidas de proteção do emprego e dos trabalharores: estas políticas servirão apenas para ‘proteger’ as rendas do capital, pouco influindo na expansão das exportações. Resta ainda mencionar o fato de que as desvalorizações cambiais rebotariam sobre os custos da dívida externa e interna em dólares e sobre a possível dinâmica da conta de capitais do Balanço de Pagamentos.

Dentro deste quadro, o financiamento do déficit das transações correntes e o fechamento das contas de capital se tornam extremamente complicados. A entrada de investimentos diretos, sobre a qual o Governo deposita tantas esperanças,  tende a ser afetada negativamente pelo encolhimento da liquidez internacional  e a deflação de ativos associadas à crise da Ásia, um de cujos efeitos imediatos seria a paralização dos grandes projetos asiáticos no país. Além disso, o ingresso deste tipo de investimento é parcialmente esterilizado pelas crescentes remessas de lucros que, em 1997, já atingiram, em termos líquidos, quase US$ 6 bilhões, um   aumento de aproximadamente 70% com relação a 1996. Restam as privatizações,  com as  quais o Governo pretenderia captar recursos   externos de mais de US$ 10 bilhões em 1998. Mesmo que a captação alcançasse a meta proposta ela representaria uma  cifra inferior ao montante dos títulos cambiais que vencem ao longo do ano, estimado em 15,5 bilhões de reais.  Logo, a presunção  de que se possa diminuir o montante do endividamento interno e externo de curto prazo, necessário à rolagem da dívida global, pertence ao terreno das fábulas que têm sido impingidas à opinião pública a título de previsões macroeconômicas, todas furadas desde 1995. Vale dizer, a equipe econômica vai continuar torrando o patrimônio público na  fogueira das cirandas financeiras nacional e internacional sem diminuir um dólar na dívida externa ou um real na dívida pública, senão que expandido-as explosivamente e reduzindo à impotência o Tesouro Nacional e o Banco Central para operar políticas fiscal e monetária dignas deste nome.

A insegurança das autoridades econômicas continua, portanto,  a despeito da propaganda e dos festejos. O próprio BACEN, em resposta a um requerimento de informação por mim formulado sobre o custo da recompra de US$ 9 bilhões de reservas perdidas na crise de outubro, admite que "a recomposição das reservas internacionais, se ocorrer e na magnitude mencionada, será função da credibilidade dos agentes econômicos externos no restabelecimento do ambiente pré-crise e não do atual diferencial de juros, percebido como transitório. Caso contrário, os fornecedores de recursos estariam concordando com níveis de riscos inaceitáveis para o padrão de gestão vigente no mercado" (grifo meu). A  modesta redução dos  juros (de 38% para 34,5% a.a. na taxa básica e de 43% para 42% no teto da taxa do  mercado futuro), recentemente determinada pelo Banco Central reflete, neste sentido, as dificuldades para estabilizar as pressões de saída de capital e estimular o ingresso de recursos externos, de cuja velocidade depende, em última instância, o declínio da taxa de juros.

Não por acaso, então, anunciaram várias novidades que devem entrar

em execução este ano, todas destinadas a atrair capitais de curto

prazo.  As mais significativas  são: a venda de ações ‘excedentes’

      da PETROBRÁS financiadas com emissão de títulos com cláusula de

recompra em dólar e risco de câmbio por conta do Tesouro; o

financiamento da PETROBRÁS para explorar  a Bacia de Campos com

parcerias abertas ao capital estrangeiro e  financiadas em parte

pelo BNDES e - face à manifesta insuficiência desta  última

alternativa como instrumento de atração de recursos - a utilização

do mecanismo de ‘swaps’ (operações de venda futura de petróleo) em

um momento em que não são claras nem favoráveis as condições do

mercado internacional deste produto. Agregue-se que todas estas

operações, além de tecnicamente discutíveis, são claramente

 prejudiciais do ponto de vista do interesse nacional.

Ao mesmo tempo o Governo acelera a nossa ‘globalização financeira

subordinada’, anunciando a possível venda externa do BANESPA  (com

gastos prévios de saneamento de R$ 26 bilhões) e da BB Distribuidora

de Valores,  que administra um patrimônio sob gestão de R$ 21

bilhões. Com a intenção de legitimar estas e outras operações de

abertura do sistema financeiro público, desbastando o caminho para,

inclusive, estender este processo ao Banco do Brasil e ao BNDES, o

Governo pretende  - através do projeto de Decreto Legislativo

n.284-B, de 1996,  ora em tramitação  nesta Casa -  aprovar o texto

do Segundo Protocolo  ao  Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços

patrocinado pela OMC (Organização Mundial do Comércio), que dá

caráter mandatório aos compromissos assumidos pelo Brasil

relacionados com a participação de pessoas físicas e jurídicas no

capital societário das instituições  financeiras brasileiras

  incluidas no programa de privatização .   Finalmente estão propondo

  a abertura da carteira financeira da BNDESPar  para adequar-se à

legislação norteamericana e poder operar em N.York, a praça

financeira global mais importante.

 

  Todas estas operações foram divulgadas depois do estreitamento da

liquidez internacional  e destinam-se a propiciar a abertura

      completa do nosso sistema bancário público e privado à

      internacionalização financeira. Ou seja, o Governo resolveu

      defender, temporariamente,  o seu ‘modelo econômico’, a esta altura

      apenas eleitoral, trilhando o mesmo caminho que levou à catástrofe

      os tigres asiáticos.

 

 

 

                                                 É o que eu tinha a dizer.

                                                           Muito obrigada.

 

 

 

 

 

 

Maria da Conceição Tavares

Discurso pronunciado em 01/07/98

 

Senhor Presidente,

Senhoras e Senhores Deputados,

 

 

       A ciranda financeira dos mercados desregulados agrava a

      instabilidade global que ronda a economia  internacional.  O dominó

      asiático se agiganta podendo  atingir a China e a crise russa ameaça

      a estabilidade da moeda européia.  Os europeus acertaram tacitamente

      um empréstimo de emergência à Rússia, que  não foi confirmado na

      reunião posterior da OCDE. Uma vez mais, como no caso da Coréia, os

      Estados Unidos frearam a ajuda dos países vizinhos, para impor as

      suas regras através do FMI.

 

       Todos sabem que o Fundo é uma agência obsoleta para os propósitos

      de regulação financeira internacional, que se limita a seguir a

      orientação do Tesouro americano. Este tenta impor as regras mas não

      funciona bem como emprestador internacional de última instância. Na

      verdade não pode fazê-lo porque é devedor e não credor, como no após

      guerra. Entretanto,  o maior país credor da atualidade, o Japão,

      aprofunda sua crise e a banca japonesa, por razões de equilíbrio

      patrimonial, ameaça retirar o dinheiro investido em títulos da

      dívida pública americana. Assim a instabilidade cambial

      internacional aumenta e os mercados financeiros desregulados

      contaminam-se uns aos outros,  podendo, no caso de agravar-se a

      crise japonesa, conduzir a uma crise global. Estas foram as razões

      de fundo que levaram os EUA a segurar o Ien no mês passado.

 

       Outros sintomas da crise internacional  começam a aparecer no

      horizonte. Previsões recentes reduzem pela metade o crescimento nos

      países relevantes da OCDE. Os preços de exportação da indústria de

      informática despencam. Os preços das principais commodities

      (petróleo, cobre, grãos) estão em queda livre por excesso de oferta,

      apesar das baixas taxas de juros internacionais. A deflação de

      ativos está conduzindo à recessão e deflação de preços. A queda do

      yen ameaça aprofundar a crise asiática e levar a China a uma

      ‘desvalorização competitiva’, que provocaria uma nova onda de

      tremores nos mercados financeiros.

 

       Por outro lado,  as  explosões atômicas da Índia e do Paquistão

      indicariam, na opinião de muitos analistas, que a crise não se

      limita aos aspectos financeiros e comerciais e avança também nos

      aspectos político-estratégicos, pondo em questão  a ‘pax americana’.

      Ambas as tendências assustam  a China, que  reclama da falta de

      providências dos EUA na crise financeira asiática mas não está

      disposta a submeter-se às regras de abertura descontrolada nem

      aceitar a arbitragem nuclear unilateral dos EUA na Ásia.

 

       Tomando distância da conjuntura interna e olhando a longo prazo, dá

      para perceber que o Brasil teria mais possibilidades de resistir do

      que outros países - de economia menor e mais dependentes do comércio

      exterior - e de ultrapassar esta crise. Não por razões

      macroeconômicas, já que os desequilíbrios neste setor são violentos,

      mas porque é um dos poucos países que ainda podem enfrentar uma

      modificação no seu modelo de desenvolvimento de forma incorporadora,

      mudando o comportamento de submissão ao ‘pensamento único’ e às

      práticas neoliberais. As possibilidades de  reorientar a alocação de

      recursos para aproveitar o potencial de crescimento do  mercado

      interno de produtos básicos e de bens e serviços não transacionáveis

      são reais. Igualmente existem oportunidades de aumentar a eficiência

      e a divisão de trabalho com os países vizinhos da América do Sul

      tendo como base o Mercosul.

 

       No Brasil, as grandes massas nunca tiveram um destino minimamente

      claro  via acesso à propriedade da terra, à educação e a uma relação

      salarial estável e progressiva, que foram os instrumentos mais

      importantes de incorporação em qualquer sociedade moderna. Todos os

      países centrais trataram de estimular esses caminhos de integração,

      não apenas para expandir os respectivos mercados internos, mas para

      aumentar a própria capacidade de defesa, através da formação de

      povos de cidadãos. Aqui, nas crises,  sempre ‘fugimos para a

      frente’, buscando defender os interesses das elites regionais e

      nacionais e ignorando os interesses e necessidades da maioria  da

      população.

 

       Do ponto de vista da  sociedade construimos um país  que só obteve

      êxito do ponto de vista do capital. Durante décadas crescemos mais

      do que todos, ora com democracia formal, ora com ditadura, mas nunca

      com democracia de massas.  O povo assistiu embasbacado à Proclamação

      da República, ao golpe de Vargas, à morte do mesmo Vargas e  ao

      golpe de 1964. Só deixou de estar paralisado a partir de 1977,

      quando participou ativamente da luta contra a ditadura e pelos

      direitos sindicais e sociais.  Começamos a nos mover na rua por

      direitos há pouquíssimo tempo. O teste da democracia, entre nós,

      ainda não está terminado. Liquidamos a ditadura para tentar virar

      uma nação de cidadãos, mas aos poucos fomos perdendo esta

      perspectiva.

 

       Hoje, frações do povo brasileiro lutam em todos os horizontes e só

      conseguem ganhar perspectiva e esperança nas eleições presidenciais.

      Lutam por direitos do cidadão, típicos  do século XVIII, por

      direitos sindicais típicos do século XIX e por direitos sociais do

      século XX. Este século em muitos aspectos foi terrível, é verdade,

      mas também trouxe conquistas, que estão ameaçadas pelo atual domínio

      do capital financeiro internacional. Os trabalhadores estão tentando

      manter essas conquistas. Lutam no terreno dos direitos, sem rejeitar

      a herança da modernidade, mas ainda não conseguiram se incorporar de

      vez, até porque os seus representantes políticos nunca tiveram o

      direito à alternância democrática no poder, que foi a característica

      fundamental das democracias do século XX.

 

       Os governos recentes foram ficando cada vez mais tecnocráticos a

      partir da ditadura. Os economistas, mesmo os da sociedade civil

      descontente,  ficam buscando um ‘modelo’, quando a situação social e

      a crise internacional não permitem ‘modelos’, mas sim requerem

      opções e políticas claras a favor do povo. A pergunta obsessiva é:

      como enfrentar a crise internacional? O Governo declara não saber o

      que fazer enquanto uma parte das elites progressistas que o

      acompanha, cada vez mais cansada de sua fatuidade, percebe que o

      ‘modelo’  está fazendo água em todo o mundo e parece optar pela

      visão de Keynes de que "qualquer coisa é preferível ao que os

      relatórios financeiros chamam de ‘melhor opinião de Wall Street’".

      Em nossa opinião a atual crise internacional só pode ser enfrentada

      resistindo, negociando com seriedade, pondo os vastos recursos

      produtivos e a poupança forçada dos trabalhadores -  que estão sendo

      desperdiçados ou esterilizados -  a favor de projetos que gerem

      emprego, modernizem as infraestruturas básicas e garantam a

      universalização dos direitos sociais. Esta é a matriz básica a

      partir da qual devem desdobrar-se todos os projetos concretos.

 

       A Oposição tem  um projeto nacional  afirmativo claramente

      identificado com os interesses do povo brasileiro. Quaisquer que

      sejam as turbulências que nos atinjam, temos condições objetivas de

      levá-lo adiante, desde que se atue com determinação, utilizando os

      recursos primordialmente para melhorar a situação dos de baixo. O

      Brasil é um país continental, tem potencialidades de

      desenvolvimento,  tem condições objetivas que independem do capital

      especulativo, que independem da globalização. Tem condições de dar

      alimentação, vestuário, calçado, escola e um mínimo de saúde e

      seguridade social à sua população. Embora possa levar algum tempo,

      existem  condições objetivas de converter o país numa nação, como o

      fizeram, aliás, vários países no mundo, nas crises internacionais

      anteriores e nas situações  mais diversas de desenvolvimento e

      organização social da produção e  sistema político.

 

       Não creio que com a extensão e profundidade da atual crise as

      elites de poder tenham condições de, uma vez mais, ‘fugir para

      frente’. Agora a superação da crise, no front interno, supõe

      mudanças  efetivas na alocação dos recursos e reformas distintas das

      apregoadas pela ordem neoliberal, que só fazem ampliar o fosso da

      dependência e da apartação social e econômica. Não podemos mais

      delegar os destinos do país às tradicionais elites nacionais ou

      internacionais.  Desta vez, o Povo tem que fazer a Nação.

 

 

 

                                                 É o que eu tinha a dizer.

                                                           Muito obrigada.                                          

 

 

 

 

 

 

 

Maria da Conceição Tavares

 

Discurso pronunciado em 04/03/98

 

                                                        Senhor Presidente,

                                            Senhoras e Senhores Deputados,

 

       O processo de privatização vem se desenvolvendo num  quadro de

      desordem nos contratos, nos financiamentos e no controle acionário

      do qual a Vale e a Light constituem casos exemplares. A precariedade

      dos mecanismos de regulação e controle por parte do Estado e da

      sociedade é extremamente grave para os brasileiros, na sua dupla

      condição de  consumidores e cidadãos. O Governo privilegia as

      privatizações como suposto mecanismo de financiamento das contas

      internas e externas, deixando de lado tanto a melhoria dos serviços

      e a redução dos custos para o consumidor quanto o problema maior do

      emprego e da eficiência dos sistemas de serviços de utilidade

      pública. Na prática o processo de privatização avança na área de

      transferência patrimonial - com altos custos para o Tesouro e o ônus

      de financiamento para o BNDES - sem que tenha sido definido um marco

      estratégico de política para os setores envolvidos e estabelecidas

      metas de investimento e mecanismos operacionais de regulação, que

      garantam a continuidade e aprimoramento dos serviços privatizados.

 

       Todo este sucateamento dos serviços e do patrimônio não alcança

      sequer os objetivos pragmáticos que o Governo se propos, já que a

      inconsistência das privatizações realizadas até agora como

      instrumento de melhoria das contas internas e externas é evidente

      qualquer seja a ótica adotada para sua avaliação.

 

       O impacto das privatizações sobre a situação fiscal, por exemplo,

      tem se mostrado  irrelevante vis à vis os custos fiscais da política

      de atração de recursos externos. No triênio 1995/97, segundo dados

      oficiais publicados no boletim BRASIL REAL  n.13, de 31.01.98,

      editado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da

      República, as privatizações realizadas geraram  uma arrecadação de

      US$ 26,9 bilhões e a transferência de US$ 6,3 bilhões de dívidas

      para o setor privado. É interessante observar que o referido boletim

      não menciona as dívidas encampadas pelo Estado, particularmente no

      que diz respeito à dívida externa do setor elétrico, que é

      gigantesca e que até hoje este Congresso não pode apreciar.

 

       O total das privatizações no triênio inclui US$ 7,8 bilhões

      relativos à desestatização de empresas abrangidas pelo Programa

      Nacional de Desestatização (PND), US$ 14,4 bilhões produzidos por

      privatizações estaduais e US$ 5 bilhões procedentes da concessão da

      Banda B de telefonia móvel.  No entanto, estes resultados não

      produziram qualquer efeito positivo sobre a dívida pública (interna

      e externa). No mesmo período a dívida pública federal (total fora do

      BACEN)   passou de 61,8 bilhões de  reais  para 254,5 bilhões,

      traduzindo um aumento de R$ 192, 7 bilhões. Paralelamente, as

      despesas com juros reais, que eram da ordem de  R$14,2 bilhões em

      1994, saltaram  para R$35,5 bilhões em 1995 e R$29,4 bilhões em

      1996,  superando os R$30 bilhões em 1997. Ou seja, em três anos

      foram gastos, em termos reais,  R$95 bilhões com juros  e o gasto

      adicional imputável à atual política econômica - assumindo que em

      cada ano do triênio as despesas tivessem permanecido no mesmo nível

      observado  em 1994 - foi de 52,4 bilhões de reais, o que representa

      aproximadamente o dobro do arrecadado com as privatizações.

 

       No que diz respeito à atração de recursos externos sucede algo

      similar. Desde o início do PND, em 1991, de acordo a  informações

      publicadas no Jornal do Comércio de 03.02.98, teriam sido

      arrecadados US$ 47,6 bilhões com a venda de 56 empresas federais, 17

      estaduais e cinco de telecomunicações, representando a participação

      estrangeira neste total 27,6% contra 72,4% de empresas, bancos,

      fundos de pensão e pessoas físicas do Brasil. A entrada de capital

      estrangeiro para fins de privatização foi portanto de US$ 13,1

      bilhões, enquanto a dívida externa pública permaneceu praticamente

      constante, apesar da negociação com os credores internacionais em

      1992.  Em 1997, segundo o Banco Central,  os recursos externos

      direcionados às  privatizações  somaram aproximadamente  US$ 5,3

      bilhões, montante  que é  inferior ao das  remessas  líquidas de

      lucros e dividendos  registradas no ano, que somaram US$ 5,6

      bilhões, para não falar das amortizações da dívida externa, que

      alcançaram cerca de US$ 20 bilhões em 1997 e ultrapassaram os US$ 45

      bilhões no triênio 1995/97. Já   a dívida externa total

      experimentou, neste último período, um acréscimo de US$ 44,6 bilhões

      (só em 1997 foram  US$14,8 bilhões a mais), acumulando  um   estoque

      total de US$ 192,9 bilhões em dezembro passado.

 

       Agregue-se a isto o fato de que o BNDES - aproximadamente a metade

      de cujos recursos  provêm do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) -

      vem financiando uma parte não desprezível do processo de

      privatização. Em 1997, até o mes de  setembro, o Banco havia

      destinado 4,8 bilhões de reais à privatização das estatais do setor

      elétrico e de telecomunicações, cifra que compreende  financiamentos

      diretos aos compradores e aquisição  de ações através da BNDESPar,

      inclusive para ‘financiar’ o ágio obtido em algumas operações. Das

      privatizações estaduais em 14 leilões realizados em 1997, conforme

      dados publicados no jornal Folha de São Paulo de 18.12.97,  o BNDES

      financiou 3,1 bilhões de reais do total de 13,2 bilhões arrecadados.

      As condições de financiamento incluem de 3,5% a 5% de taxa de risco

      mais a variação cambial ou a Taxa de Juros de Longo Prazo nos

      empréstimos diretos para estas operações, com prazos que variam de 5